SÃO PAULO – Correndo o risco de ser óbvio e redundante, preciso apontar a importância de a temporada em São Paulo de PI — Panorâmica Insana acontecer no Teatro Novo, antigo Teatro Dias Gomes. Trata-se de um encontro feliz entre texto e espaço físico, com texto, assuntos e imagens encontrando ressonância na estrutura da sala de espetáculos incompleta, com seus intestinos expostos, as paredes sem reboco, o esqueleto à mostra.

Por ser um teatro em reforma, ele está no meio do caminho, entre o que foi e o que pretende ser. É ao mesmo tempo ruína e erguimento, cadáver e feto. Da mesma forma, PI fala desse mundo que está entre, no vão do que foi e do que será, no vácuo entre o mundo que faliu e o que surgirá dos escombros. Não necessariamente será algo bom — na verdade, pelo modo como as coisas se configuram no espetáculo, as chances são de que tudo piore ou, pelo menos, que os erros do passado se repitam.

Está incrustada no ser humano uma ânsia de poder, existem nas relações interpessoais básicas dinâmicas de domínio, tensões resultantes da vontade e da contra-vontade. Se chegamos onde chegamos por causa disso, talvez a partir do horror possamos superar essas ânsias e pensar uma nova sociedade. Ou talvez fiquemos presos numa sequência de horrores que alimentem nossos impulsos destrutivos, causa e consequência de si mesmos, miséria parindo miséria.

O que digo aqui são impressões que eu tenho a partir das cenas sugeridas pela encenação. Poucos momentos em PI são claros, diretos e óbvios, preferindo o espetáculo se apropriar da dança e da performance para estilhaçar a lógica, embaralhar as compreensões intelectuais e propor imagens que podem ser lidas de diversas maneiras, ainda que a atmosfera pós (ou, às vezes, pré)-apocalíptica permaneça instaurada durante toda a sessão.

O que se passa no palco são os quatro atuantes, Cláudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo, dando corpo a um esquema de cenas provocadas pelos textos de Júlia Spadaccini, Jô Bilac e André Sant’anna, com citações de Franz Kafka e Paul Auster e escritura cênica da diretora Bia Lessa. Parece muita coisa, e não deixa de ser, mas também contribui para a noção de panorâmica que PI almeja.Claro,algumas cenas são menos interessantes do que as outras, algumas são menos profundas, volta e meia há quase uma redundância nos assuntos e nos formatos, mas isso parece mais uma escolha do que uma incapacidade de síntese.

Baseado em pessoas e dados reais, mas extravasando os terrenos do teatro documentário, PI põe em pauta temas como indivíduo/coletivo; o que é se manter são num mundo insano; nação/migração/pertencimento; sexualidade; gênero; conflitos de classe e raça; fé; violência e hipocrisia. São muitos assuntos, bastante indigestos e bastante complexos e se nem todos atingem todo o potencial cênico que possuem, é inegável que atravessam a plateia.

Na sessão que eu assisti, pelo menos seis pessoas abandonaram o espetáculo antes do fim. Tenho algumas suspeitas do porque, sendo as mais prováveis a quebra de expectativa (“paguei caro no ingresso do espetáculo que tem atores globais, quero uma noite glamurosa” ou algo do tipo); a crueza e a dureza dos temas, somadas a um pessimismo ou um niilismo; o confronto direto com a plateia, como na cena em que Cláudia Abreu, corajosa pra cacete, enfrenta o público de peito aberto e questiona a religião e o consumismo, dois apaziguadores para nossas angústias e para o medo acachapante gerado pelo fato de que somos pequenos perante o universo e talvez nossas vidas não tenham sentido ou ninguém zelando por nós; a linguagem do espetáculo, que não é hermética mas é difícil, que demanda que o público saia da passividade e dê sentido ele mesmo ao que se desenrola no palco.

É curioso ver como o público sai do espetáculo justamente nas cenas mais controversas, talvez como uma recusa ao debate, ou como defesa de uma posição sólida. Talvez as pessoas saiam pensando Deus existe sim e não vou ficar aqui ouvindo difamações sobre Ele ou Eu não paguei caro e me vesti bem pra ficarem aqui colocando em cheque minha visão de mundo , que, honestamente, são reações tão válidas quanto ficar até o final e aplaudir de pé, seja porque concordou com tudo (e aí é fácil aplaudir quando a gente concorda,né?), seja porque gostou de ser provocado ou seja porque o código social de ir ao teatro demanda que você fique até que os atores terminem de agradecer pelas palmas e já que está todo mundo de pé com cara de quem gostou, eu também vou ficar.

Se tanta gente sai no meio, me parece sinal de que o assunto ou a linguagem de algum modo atingem quem está do outro lado do palco, nem que seja pelo choque, pelo tédio ou pela dificuldade de decodificação e fruição. De todo modo, é bom ver que PI não é apaziguador, pacificador ou faz concessões. É o que é, acredita no que acredita (estética, ética, social e politicamente) e segue o baile.

Talvez ele quase seja sisudo demais, mas as cenas que quebram essa seriedade são um bálsamo. Como exemplo, vale citar o monólogo em que Rodrigo Pandolfo (ótimo criando tipos sem cair no esteriótipo, na caricatura vulgar e rasa) dá voz a um homem desapaixonado que vai se casar e reflete sobre Deus, amor e prazer — um dos poucos momentos em que o espetáculo recorre ao humor, ainda que seja sarcástico e ácido; os delicados momentos em que três atuantes soterram o quarto membro do elenco com roupas que representam os mortos e sugestão de uma balsa no palco; o modo inteligente com que armas de brinquedo são utilizadas, expondo não só o procedimento de criação da cena e dos recursos teatrais (é tudo faz-de-conta, afinal) mas também brincando com a dualidade dos exércitos, das guerrilhas e do outro que detém poder sobre mim: ele pode ser imponente ou patético, depende da luz que incide sobre ele.

Pensando em procedimentos e técnicas, cabe apontar a continuidade da pesquisa de Bia Lessa sobre a sonoridade da cena, onde música, ruídos e distorções são combinadas, criando harmonias e dissonâncias, que contribuem para a instauração de uma atmosfera caótica e incômoda. A alteração digital da voz dos atuantes também é muito interessante, não só pelas possibilidades de leitura (isso significa que essas pessoas estão se tornando menos humanas?, eu me pergunto de modo mais racional) mas também pelo modo como a voz manipulada me atinge e gera em mim reações afetivas instintivas (eu gosto/eu não gosto disso, meu corpo comunica, antes que eu consiga racionalizar o motivo). É um efeito relativamente simples e consideravelmente eficaz, e expande e muito os usos do microfone no palco, bastante em voga no teatro já há alguns anos, mas sem ir muito além do efeito padrão de ampliar a voz do falante.

Embora não seja fácil (se precisa ou não ser é uma conversa que eu vou adorar ter), PI é interessante não só pelas investigações de técnica e ambientação, mas por ser resultado do encontro de diversos profissionais talentosos e maduros. É realmente sisudo, é realmente desafiador, é realmente difícil de digerir, intelectual ou emocionalmente. Mas é bom ser desafiado.

 

PI — Panorâmica Insana. Foto: João Caldas

Teatro Novo (280 lugares).Rua Domingos de Moraes, 348, Vila Mariana

Até 29 de julho. Sexta e Sábado às 21h, domingo às 18h

Ingressos: Sexta R$ 50, sábado e domingo R$ 70

 

Ficha Técnica:

Textos de Júlia Spadaccini, Jô Bilac e André Sant’anna com citações de Franz Kafka e Paul Auster

Concepção, Direção Geral e Escritura Cênica: Bia Lessa

Elenco: Cláudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo

Diretor Assistente: Bruno Siniscalchi

Assistentes de Direção: Amália Lima e João Saldanha

Concepção Musical: Dany Roland

Desenho de Som: Estevão Casé

Figurino: Sylvie Leblanc

Assistentes: Julia Barreto e Clara Lessa

Iluminação: Bia Lessa e Wagner Freire

Cenografia: Bia Lessa

Fotos: João Caldas

Programação Visual: Vicka Suarez

Assessoria de Imprensa: Beth Gallo, Dani Bustos e Thais Peres (Morente Forte)

Coordenação de Produção: Egberto Simões

Produção Executiva: Martha Lozano

Assistência de Produção: Bárbara Santos

Assistência Administrativa: Alcení Braz

Administração: Danilo Bustos

Idealização: Cláudia Abreu e Luiz Henrique Nogueira

Produtoras: Selma Morente e Célia Forte

Patrocínio: Marisa, Laboratório Cristália e Porto Seguro

Realização: Morente Forte Produções Teatrais

Fernando Pivotto,  especial para o Aplauso Brasil (

 Fernando Pivotto publicou o texto no medium.com/@fernandopivotto – parceiro do Aplauso Brasil