50 anos do Golpe: Teatro de Narradores traz tema para o palco em dois espetáculos gratuitos

Redação do Aplauso Brasil (redacao@aplausobrasil.com)

Foto do espetáculo "Retrato calado". Divulgação/ Rodrigo Pereira
Foto do espetáculo “Retrato calado”. Divulgação/ Rodrigo Pereira

SÃO PAULO – Em um momento em que os cinquenta anos do Golpe militar de 1964 é uma das principais pautas no País e parte da sociedade brasileira reflete sobre o que aconteceu, o Teatro de Narradores propõe uma dupla reflexão sobre as consequências deste ato em dois espetáculos: Ensaio Sobre O Sim e o Não (sextas-feiras, às 21h) e Retrato Calado Primeira Parte Cena Primitiva (sábados, às 21h e domingos às 19h). Ambos estarão em cartaz no Teatro João Caetano, com ingressos gratuitos. As temporadas terminam respectivamente dias 25 e 27 de abril de 2014.

A concepção, espaço cênico, dramaturgia e direção geral é de José Fernando de Azevedo. Em Junho de 2013, o grupo abriu o processo de elaboração desses materiais ao público, no sesc Belenzinho.

Para que o público conheça o projeto, o grupo disponibilizou um TRECHO do espetáculo RetratoCalado Primeira Parte Cena Primitiva:

 “(…) Pensar o pau de arara não seria, então, a mesma coisa que investigar a origem das línguas? (…) Não teria havido, a partir de determinado momento, a “esquadronização” geral, uma institucionalização nacional daqueles métodos que apenas começavam a ser utilizados, agora, também para os que ousavam erguer-se contra o regime? (…) E, entre a contestação propriamente política e a rebelião individual primitiva, haveria a partir de então intercâmbio, enriquecimento e mimeses contínua. Não deveríamos também fazer datar desses anos a ruptura com os padrões políticos vigentes, a passagem para um novo estágio, o abandono daqueles tempos idílicos em que a violência do poder convivera com a bucólica paz das ideologias dominantes? (…) A dor que continua doendo até hoje e que vai acabar por me matar se irrealiza, transmuda-se em simples “ocorrência” equívoca, suscetível a uma infinidade de interpretações, de versões das mais arbitrárias, embora a dor que vai me matar continue doendo, bem presente no meu corpo, ferida aberta latejando na memória. Daí a necessidade do registro rigoroso da experiência, da sua descrição, da constituição do material fenomenológico, da sua transcrição literária. Contra a ficção do Gênio Maligno oficial se impõe o minucioso relato histórico e é da boa mira neste alvo que depende o rigor do discurso. (…) Lá fora, o melhor dos mundos, como se nada tivesse acontecido. Os generais prosseguiam, meticulosos, na patriótica azáfama; o povo brasileiro deixava-se salvar ao som estridente do “eu te amo meu Brasil” e se preparava para o grande espetáculo, enquanto seu pacífico esquadrão, sob o comando de Pelé e Tostão, aprestava-se para as próximas batalhas, que as TVs transmitiriam do México: alicerçando, cimentando, sedimentando os milagrosos benefícios que os magos do poder pretendiam estar produzindo…”

Foto do espetáculo "Retrato calado" e os créditos são de Rodrigo Pereira
Foto do espetáculo “Retrato calado” e os créditos são de Rodrigo Pereira

 Os espetáculos:
ENSAIO SOBRE O SIM E O NÃO
Foi criado a partir das peças didáticas de Brecht,  Aquele que diz Sim e Aquele que diz não, uma reflexão sobre o sentido do sacrifício na ação militante e suas consequências históricas. A trama traz um professor e um grupo de alunos que saem em busca de remédios – na primeira versão, para salvar uma cidade atingida por uma epidemia, na segunda como uma expedição de pesquisa.  Um garoto decide tomar parte na expedição, tomando a meio caminho e colocando em risco a missão. O costume diz que aquele que coloca em risco o coletivo deve ser sacrificado

RETRATO CALADO PRIMEIRA PARTE CENA PRIMITIVA
O tema discutido é a tortura, a partir do livro de Luiz Roberto Salinas Fortes, militante político que descreve duas prisões sofridas em 1970, na OBAN (foi um centro de informações e investigações montado pelo Exército do Brasil em 1969) e, depois, no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), onde foi torturado. A encenação busca a compreensão das forças em jogo e do quanto, de maneira desproporcional, a luta política no Brasil durante a ditadura ganhou seus contornos trágicos, apesar do esquecimento institucional que define a fisionomia atual deste país. Os atores em cena assumem perspectivas distintas sobre o material, produzindo novos depoimentos: suas vozes dando corpo a uma fala.

Ficha Técnica Geral
Concepção, espaço cênico, dramaturgia e direção geral José Fernando de Azevedo Desenho Sonoro Leandro Simões Rodrigo Roman Desenho de Luz Laiza Menegassi Vídeo Rodrigo Pereira Figurino Teth Maiello/Teatro de Narradores Operação de Projeção de Imagens Lucas Venturin Assistente de Palco Frederico Azevedo Produção Ana Elisa Mello e Teatro de Narradores
RETRATO CALADO PRIMEIRA PARTE CENA PRIMITIVA
Texto Luiz Roberto Salinas Fortes Atores Ana Elisa Mello, Klarah Lobato, Renan Trindade, Teth Maiello, Vitor Placca Músico de cena Thiago Salas

ENSAIO SOBRE O SIM E O NÃO
Atores Teth Maiello e Vitor Placca Cantores Abner Santana, Ana Elisa Portes Bruno de Sá Nunes, Camila Rabelo, Felipe Vidal, Fernando Henrique Ribeiro Mariana Trento, Nicolas Salaberry, Renato Spinosa, Raphael A. Pinto Pianista Walter Rodrigues Arranjo Anselmo Mancini Coordenação Musical Paulo Frederico Teixeira

ENSAIO SOBRE O SIM E O NÃO

Sextas, 21h – Até 25 de Abril

 RETRATO CALADO PRIMEIRA PARTE CENA PRIMITIVA

Sábados, 21h; Domingos, 19h – Até 27 de Abril

ENTRADA FRANCA

Classificação Etária: 14 anos

Teatro João Caetano

Rua Borges Lago, 650 – Vila Clementino

Tel.: 5549 1744 (436 lugares)

www.teatrodenarradores.com.br

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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