A ARTE CONTEPORÂNEA E HÍBRIDA DE ELISA OHTAKE

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Tira Meu Fôlego. Foto: João Caldas
Tira Meu Fôlego. Foto: João Caldas

CAMPINAS* – A diretora de dança e teatro Elisa Ohtake apresenta, na Bienal Sesc de Dança, o Tira meu Fôlego, premiado como melhor espetáculo de dança pela Associação Paulista de críticos de Arte (APCA), em 2014. A estética plástica, a facilidade em mesclar linguagens artísticas com temas aparentemente simples são algumas razões que fizeram Elisa ganhar destaque no cenário das artes.

E Tira meu Fôlego tem muito dessas características. Não traz respostas, mas levanta questões importantes à crítica atual. Seja na dança ou na interpretação, há carga de ironias, sacadas e contradições.

A diretora reuniu para o espetáculo consagrados performers da dança: Cristian Duarte, Eduardo Fukushima, Raul Rachou, Rodrigo Andreolli,Sheila Ribeiro e a própria Elisa Ohtake. Entre solos, ensaios, textos, músicas, purpurinas, cores, objetos inusitados e, claro, coreografias, todos são desafiados para provar de ‘corpo inteiro’ que estavam apaixonados.

O processo é colocado em cena na forma de ensaio, texto, dança e troca entres atores e a plateia. Do palco para o público, é possível identificar questões que refletem as relações e como vemos a paixão.

Em Tira meu Fôlego nada é lugar comum. O espetáculo começa, inclusive, brincando com o tédio e com a paciência dos presentes. Aos olhos desatentos, demora para iniciar, mas é tudo parte da reflexão. Hits da música divertem o público, enquanto questionamentos e uma dança pulsante toma a cena. Consumo, paixões e banalidade. A capacidade e incapacidade de todos.

Questões parecidas que a diretora tratou no espetáculo Let’s Just Kiss and Say Goodbye. Na montagem, Elisa convidou atores a dançar e interpretar a despedida do palco. Uma discussão sobre um teatro que não aguentou a pressão do mercado e sobre atores que tinham muitas histórias para contar e muitos sonhos de textos para montar.

Os recursos plásticos como purpurina de várias cores se destacando em um cenário predominantemente preto, o uso de solos alternados de cenas conjuntas é semelhante com Tira meu Fôlego. Elisa está mesmo se aprofundando no “estudo da vitalidade”. Perguntando a si, aos elencos que comanda e ao público o que é vital ao nosso tempo, ela se torna uma importante crítica dos vazios contemporâneos.

E que continue como fez em Campinas. Fez o Galpão Multiuso do Sesc lotar. E como lotar não é suficiente, a plateia também respondeu bem. Riu das próprias vitalidades e incapacidades. Cantou e dançou hits, e se encontrou em meio aos fragmentos indefiníveis do que é isso de ser contemporâneo.

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!