A Construção de Caco Ciocler

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Peça é adaptação de conto de Kafka

Sob a direção de Roberto Alvim, o ator vive o personagem atormentado do conto de Franz Kafka que resolve construir sua casa debaixo da terra, num buraco para se refugiar dos perigos do mundo

SÃO PAULO – Nada estranho em se tratando de Franz Kafka, considerado o maior escritor de língua alemã do século XX. Para quem criou o personagem que, num belo dia, acorda no corpo de uma barata (A Metamorfose, de 1915), viver num buraco, longe de todos e do mundo, parece “normal” dentro deste universo.

A Construção — em cartaz até final de março no Espaço Cênico do SESC Pompeia — é uma adaptação inédita para o teatro do conto homônimo do escritor tcheco que o diretor Roberto Alvim traduziu e criou especialmente para a performance de Caco Ciocler.

A trama, publicada em 1923, está intimamente ligada ao momento que o escritor vivia: turberculoso e pressentindo a ascensão do nazismo, Kafka escreveu o conto meses antes de sua morte.

Num clima intimista (a sala reúne apenas 50 espectadores), A Construção começa na penumbra, com apenas um pequeno foco de luz sobre uma mesa em que o personagem escreve. Intercalando voz gutural e sussurros com frases ditas rapidamente e em tom mais agudo, Caco Ciocler dá forma ao personagem perturbado e ensimesmado, que para fugir dos perigos do mundo resolve construir sua moradia debaixo da terra.

Roberto Alvim dirige Caco Ciocler

Segundo historiadores, Franz Kafka, que nasceu em Praga, em 1883, era uma pessoa reclusa e só deixava sua casa para trabalhar numa firma de seguros. Para o diretor, o conto é uma “ficção autobiográfica” e isto é evidenciado na montagem: “O texto aborda o isolamento, um namoro com a saída e com a não saída; a vida inteira para construir uma casa, para ter sua casa e para se fechar dentro dela. Trata-se de uma metáfora do bloqueio de Kafka com o mundo exterior”, esclarece Alvim.

Em contraposição a esta figura enigmática e que veste pijama branco, o diretor criou outro personagem (vivido por Ricardo Grasson), que aparece de sobretudo e chapéu pretos em alusão à imagem de Kafka.

Além dos inimigos externos, o personagem — assim como todos nós — convive com seus próprios inimigos ou fantasmas interiores. E para combater estes adversários, nem o refúgio debaixo da terra pode resolver. Daí, talvez, o tom constrangedor e silencioso com que a peça termina. O ator, assim como já tinha feito em seu último trabalho (45 Minutos, do carioca Marcelo Pedreira, outra parceria de Ciocler e Alvim) não volta para agradecer os aplausos, evidenciando o caráter provocador, tanto do texto kafkaniano como da proposta do espetáculo.

Roteiro:
A Construção
. Texto: Franz Kafka. Direção, tradução, adaptação e iluminação: Roberto Alvim. Elenco: Caco Ciocler e Ricardo Grasson. Cenografia e figurinos: Marina Previato. Direção de produção/administração: Maria Betania Oliveira. Produção Executiva: Danielle Cabral. Trilha sonora original: Felipe Ribeiro. Assistente de direção: Ricardo Grasson. Assistente de Produção: Francielli Ferraretto. Fotografias: Bob Sousa.a

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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