A DESPEDIDA DA DAMA DO COSME VELHO

Luís Francisco Wasilewski, do Aplauso Brasil (lfw@aplausobrasil.com)

barbara-heliodoraSÃO PAULO – Barbara Heliodora morreu. Foi uma das personalidades mais controversas da cena teatral brasileira de todos os tempos. A relação que os artistas mantinham com o seu trabalho como crítica teatral formam um hilário anedotário no teatro brasileiro. Gerald Thomas desejou publicamente sua morte. Ulysses Cruz impediu sua entrada em uma encenação sua. E José Celso Martinez Corrêa protagonizou um histórico embate com ela, quando Barbara foi entrevistada, em 1998, no programa Roda Viva. A importância que os artistas davam aos seus escritos era tamanha que Henrique Tavares criou , em 1999, o espetáculo Bárbara não lhe Adora, no qual debochava da belicosa relação dos artistas com a crítica.

Todos estes episódios não diminuem a importância de Barbara para a história do teatro brasileiro. Ao contrário. Ela conseguiu, durante o período em que atuou como crítica teatral no Jornal O Globo, de 1990 até 2014 quando optou pela aposentadoria, tornar a ingrata profissão de crítica teatral uma coisa pop. Para um país como Brasil, onde nossos governantes não oferecem o mínimo de cultura teatral para a população, isto não é pouco.

Além de tudo, foi nossa maior especialista em Shakespeare. Traduziu e se especializou no estudo do dramaturgo. Sua mítica casa no Bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro carrega um impressionante acervo de obras sobre o bardo. Em 2008, tive o privilégio de vê-la palestrar sobre o autor. Era impressionante seu conhecimento.

Outro aspecto seu como crítica do qual sempre fui fã era a ousadia. Da mesma maneira com a qual saía em defesa do Teatro Besteirol de Mauro Rasi e Miguel Falabella, Barbara também tinha a coragem de destruir “falsos mitos” inventados pela crítica teatral paulistana.

A última vez que a vi foi em Agosto, em uma estreia no Teatro Maison De France. Eu estava em companhia do meu querido amigo Rubens Araújo. Fomos falar com ela, que comentou: ”Mesmo aposentada, continuo vindo nas estreias”. A partir de agora, as estreias cariocas não terão o mesmo brilho. Faltará a poltrona ocupada por Barbara. Uma lástima.