A Doença da Morte faz um check-up na relação amorosa

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"A Doença da Morte"

Peça de Marguerite Duras dirigida por Marcio Aurelio retrata o embate do amor entre um homem e uma mulher. No elenco, Paula Cohen e Eucir de Souza

SÃO PAULO – Texto escrito há 30 anos e que traz em seu posfácio o desejo da escritora Marguerite Duras em vê-lo transposto ao palco, A Doença da Morte acaba de estrear no Teatro Augusta e é extremamente contemporânea, pois põe a nu o amor entre um homem e uma mulher. Num momento em que se vê as pessoas evitando qualquer tipo de vínculo mais íntimo, não se permitindo amar, a peça de Duras vem para questionar ainda mais este tipo de atitude egoísta.

Com tradução de Vadim Nikitin,  direção e iluminação assinadas por Marcio Aurelio, a montagem começa com o casal separado fisicamente: o homem, interpretado por Eucir de Souza, está no palco, sentado numa cadeira colocada em cima de uma grande mesa e a mulher, vivida por Paula Cohen, está na extremidade oposta, no final da plateia.

Enquanto ele discorre sobre a circunstância complexa de seus sentimentos, ela desce pela plateia repetindo o que está sendo dito pelo homem, mas ao mesmo tempo questiona sua postura.

O embate amoroso entre os dois é o mote central da peça e praticamente da obra de Marguerite Duras: 

“Optamos por montar este texto porque hoje a cada dia fica mais difícil a comunicação entre as pessoas, distanciadas pela concisão discreta e impessoal das mensagens eletrônicas. E, claro, porque a autora privilegia o amor. Em sua poética de destroços, ela provoca situações de disjunção entre sons, imagens, intenções. Entre o que se sente e o que se consegue, ou não, dizê-lo”, argumenta Lulu Librandi, produtora e realizadora do projeto.

Numa passagem fundamental da peça, a mulher define que o homem sofre da doença da morte; ele fica perturbado com esta constatação, mas não tem como contestá-la. Fiquei igualmente perturbado: que doença é esta de que o Homem sofre? Não seria a doença de fugir de si mesmo, de seus sentimentos mais profundos e sinceros? Não seria a morte evitar e se distanciar do Amor? A doença da morte não seria o desamor?

"A Doença da Morte"

Num mundo em que a comunicação virtual e a tecnologia da comunicação cada vez mais afastam ao invés de aproximarem as pessoas, num mundo em que o sexo banalizou as relações íntimas e cada vez mais as pessoas não se entregam verdadeiramente umas às outras, Marguerite Duras vem com A Doença da Morte instigar ainda mais a reflexão sobre a importância do amor na vida de todos nós.

Saí da sala de espetáculo zonzo e ao mesmo tempo motivado a redigir esta resenha provocativa: até que ponto estamos contaminados com a doença da morte? Que antivírus tomar contra este mal disseminado na sociedade contemporânea?

Roteiro:

A Doença da Morte. Texto: Marguerite Duras. Tradução: Vadim Nikitin. Direção e iluminação: Marcio Aurelio. Elenco: Eucir de Souza e Paula Cohen. Assist. direção: Lígia Pereira. Cenário: André Cortez. Assist. iluminação: Silviane Ticher. Figurino: André Cortez, Lígia Pereira e Marcio Aurelio. Visagismo: Cabelo, Mario Nova. Maquiagem: Eliseu Cabral. Fotos: Vania Toledo. Design gráfico: Guto Lacaz. Direção de produção: Lulu Libranti. Produção executiva: Maria Betania Oliveria. Realização: Lulu Libranti.


Serviço:

Teatro Augusta (302 lugares), Rua Augusta, 943. Horários: sextas às 21h30, sábados às 21h e domingos às 19h. Ingressos: sexta e domingo R$ 50; sábado, R$ 60 (com meia-entrada). Vendas: Ingresso Rápido (www.ingressorapido.com.br) ou pelo tel.

4003-1212 (vendas exclusivas por cartão de credito). Classificação: 16 anos. Duração: 55 min. Acesso para portadores de necessidades especiais. Café, ar condicionado. Temporada: até 26 de agosto de 2012.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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