A morte de um revolucionário do nosso teatro

EM REDE – Foi no fatídico ano de 1968 que Antônio Bivar tomou de assalto a cena teatral brasileiro com Cordélia Brasil, texto que vinha de encontro com o conservadorismo da época ao mostrar o inusitado triângulo amoroso de uma mulher que se prostituía para sustentar seu amante e levava para casa dos dois um jovem garoto. Norma Bengell representou o papel título na histórica primeira encenação do texto, o que rendeu sérios problemas com a censura do período.

Bivar surgiu em uma geração na qual apareceram também Isabel Câmara, Leilah Assumpção, José Vicente e Consuelo de Castro. A sexualidade em suas mais diversas maneiras aparecia nos palcos brasileiros, provocando ojeriza tanto no regime militar que governava o Brasil, quanto em parte da esquerda brasileira, incapaz de enxergar o quão revolucionário eram os conteúdos daqueles textos dramáticos. Depois Bivar apareceu com Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã e Alzira Power. A segunda foi consagradora para as carreiras teatrais de Yolanda Cardoso e Antônio Fagundes.

Concomitantemente, Bivar foi se mostrando um dos melhores memorialistas da nossa literatura. Seus livros como Verdes Vales do Fim do Mundo, Longe Daqui, Aqui Mesmo e o recém-lançado Perserverança. Há também toda uma geração transgressiva da década de 1980 que teve seu livro O que é Punk?, lançado pela Brasiliense em 1982, como guia de uma mudança comportamental daquela época.

Nos conhecemos pessoalmente em 28 de outubro de 2010, no lançamento coletivo da Coleção Aplauso. Bivar estava lançando pela Coleção sua biografia, O Explorador das Emoções Peregrinas, escrito por outra musa da geração do desbunde, a grande Maria Lúcia Dahl. E eu estava autografando também pela Aplauso, Isto é Besteirol: O Teatro de Vicente Pereira.

Começando então uma amizade pelo Facebook e era um prazer relembrar com ele de atrizes antigas, da dama da alta sociedade Negra Miranda Jordão e outras “frivolidades”. Também era com enorme prazer que eu o via exercitando o flâneur pelas ruas de São Paulo, atividade que se tornou perigosa desde o surgimento da pandemia do Coronavírus. Mesmo com os incessantes pedidos dos amigos, continuou sendo um flâneur paulistano. Afinal, desde que Bivar nasceu o que mais dava prazer a ele era ser avesso às regras e transgressivo.

Luís Francisco Wasilewski, especial para o Aplauso Brasil

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