CRÍTICA: A REFLEXÃO SOBRE O AMOR DE “CHUVA NÃO, TEMPESTADE!”.

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

CHUVA_0423b_crédito Priscila PradeSÃO PAULO – Em comédia dramática em cartaz até dia 30 de junho, duas mulheres confrontam-se pelo amor do mesmo homem e pelo restauro de sua dignidade, enquanto um temporal de proporções épicas alaga a cidade.

A chuva é um dos símbolos mais utilizados nas artes. Comumente é utilizada como um momento de renascimento de alguém, uma espécie de novo batismo. Tempestades e tormentas, por sua vez, mantém esse caráter de renovação, mas também significam a provação pela qual o personagem deverá passar – se conseguir superar a força do temporal, sairá dele renovado e fortalecido.

Assim sendo, Chuva Não, Tempestade!, deixa claro logo em seu título o caminho tortuoso que suas duas personagens percorrerão. Em cena temos Natalia Gonsales e Cynthia Falabella (carismática e competente como sempre) como a noiva e a amante do mesmo homem, que finalmente se encontram para entender quem é a rival com quem têm competido há anos pela atenção de seu amado.

A premissa, embora ligeiramente clichê, é interessante sobretudo pela guerra fria estabelecida entre as duas. Os diálogos, corteses na superfície, são também cheios de rancor, raiva, medo e curiosidade, e as competentes atrizes são eficazes ao manter esta dualidade. Infelizmente, porém, sempre que a conversa chega em um ponto crítico de tensão, alguma das duas personagens ganha um solilóquio em que explica para a plateia o que está sentindo, o que a motiva, ou o que gostaria de fazer na realidade. É uma pena, pois além de ser um efeito que se desgasta ao longo do tempo – não existe muita novidade depois do terceiro monólogo, e torna-se realmente previsível lá pelo quinto –, joga por terra as sutilezas dos trabalhos das atrizes, e trata a plateia com menos respeito do que ela merece, quase como se não confiasse em nossa capacidade de entender os subtextos. Torna vulgar um conflito que teria mais potência e elegância se certas coisas fossem mantidas à meia-luz, ao invés de serem expostas constantemente sob a luz de um holofote.

Outras soluções são mais bem-feitas, como a participação de Guilherme Mazzei, o homem pelo qual as duas brigam. Sua onipresença e onipotência na vida das mulheres é demarcada por sua constante participação durante o espetáculo: é ele quem faz o som da chuva e é ele quem manipula o ventilador quando o vendaval torna-se mais forte, deixando claro que as mulheres não estão apenas à mercê da tempestade que  se torna mais feroz com o passar do tempo, mas principalmente do homem que devia amá-las e trata-las com dignidade.

O nome das protagonistas também confere algum estofo ao debate proposto pela dramaturgia. De um lado, temos a noiva cujo nome é homenagem à feminista Simone de Beauvoir; do outro, a amante, batizada Teresa por devoção de sua mãe à Santa Teresa D’Ávila. O confronto de visões sobre feminismo e amor dá fôlego ao espetáculo, garantindo que ele continue com as pessoas após as luzes da plateia se acenderem. Em tempos atuais, onde o papel da mulher na sociedade tem sido debatido cada vez com mais afinco, se o texto de Franz Keppler não traz nada de novo à discussão, ao menos tenta manter a conversa ativa.

Chuva Não, Tempestade!

Autor: Franz Keppler.

Direção: Rafael Primot.

Assistente de Direção: Guilherme Mazzei.

Elenco: Cynthia Falabella e Natalia Gonsales.

 

Serviço:

Até 30 de junho. Quartas e quintas, às 21h.

Teatro Eva Herz. Livraria Cultura Conjunto Nacional. Avenida Paulista, 2073.

Ingressos: R$ 50,00.

Duração: 70 minutos.

Classificação indicativa: 12 anos.

 

 

 

 

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