A tribo ‘mal educada’ do paz e amor retorna com tudo! É Hair 2012

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Hair" - foto de Gugba Melgar

SÃO PAULO – Era o fim da década de 60 do século passado. Uma onda de protestos tomava as ruas de cidades importantes dos Estados Unidos. A guerra do Vietnã mobilizava os jovens da classe média, já por si insatisfeitos com as regras das escolas, dos lares, das igrejas.  James Rado e Gerome Ragni, dois obscuros atores, músicos e dramaturgos da of-Broadway jogaram nesse caldeirão fervente, um fiapo de enredo acompanhando as perambulações desses inconformados  e “mal educados” jovens  rebeldes. Mas,  para deixar tudo muito realista, praticamente um documentário de uma época, adicionaram muito sexo (livre), drogas  e rock da pesada (com músicas de forte impacto,  no canto coletivo).

Não demorou muito tempo para as bilheterias tilintarem com frenesi. Da Broadway para a rua Conselheiro Ramalho (Teatro Bela Vista, hoje remodelado) foi um salto de conto de fadas sonante, não esquecendo as grandes capitais européias, até a japonesa. Foi, como se pode ver, um fenômeno atordoante, que balançou a cabeça de muita gente, de generais ao Papa. Até o adolescente cabeludo da zona leste aqui de São Paulo. Instalou-se a “Era  Hippie”, que após anos de “glória”, deu no que deu, ou seja, o sonho acabou e para nos sobrou a rua Helvetia.

A frase “O musical que mudou o mundo” estampada na capa do programa desta energética versão da dupla  Charles Möeller e Claudio Botelho, não contém, para quem já viu, nenhum exagero publicitário: é a tradução da mais pura sinceridade.

"Hair" - foto Guga Melgar

O que a intrépida dupla de diretores-produtores fez agora foi aproveitar o novo fôlego dado pelo sobrevivente James Rado, sem o seu parceiro morto em 1991, na versão encenada em 2008 na Broadway dos sucessos eternos.  O Hair que se acompanha no palco (e plateia adentro) do espaçoso Teatro Frei Caneca, no 6º andar do shopping  de mesmo nome, é um produto genuíno da bem cultivada imaginação dos seus condutores, chegando a ser sublime a sinceridade com que cada um do elenco, da equipe artística, dos técnicos se entregam à dilacerante mensagem de renovação, na base de Amor e Paz, buscada sem cessar pela humanidade, por sinal, com alguns lampejos mais ou menos luminosos.

Os diretores declaram, também, no programa da peça, que puseram a alma na condução do espetáculo. Nem precisava: a total entrega – como já dissemos antes – está presente na dança vigorosa (Alonso Barros); no canto vibrante que dobra corações e mentes empedernidos ( mais um ponto para o Claudio Botelho); na profusão de cores e estilos dos figurinos (Marcelo Pies); na música dançando com a iluminação  psicodélica (Paulo Cesar Medeiros) e que conduzem todos e tudo ao nirvana coletivo.

Pena que, a nosso ver, tenha faltado poesia, delicadeza, na cena do nu coletivo. É crua demais, talvez prosaica, como o desnudamento de cada um para o chuveiro.  Na lembrança da 1ª versão ficou o imenso lençol caído por terra e revelando  o esplendor dos corpos jovens.

No elenco, adequadissimo  aos seus tipos, faz pensar a bela lição de humildade de Kiara Sasso, senhora absoluta do Teatro Abril , misturando-se, com graça e peculiar talento , aos seus 40 colegas de cena.

Mesmo tornado um hit comercial pelos méritos intrínsecos da sua força temática, Hair continua provando o quanto vale para as gerações futuras uma foto bem flagrada de um determinado  instante histórico.

Serviço:

HAIR / Teatro Shopping Frei Caneca,  rua Frei Caneca, 569, 6. Andar, Consolação / fone 3472-2229 /600 lugares / 5ª. 21h, 6ª. 21h30,sábados 18h e 21h30. Domingos 18h / Ingressos R$ 130, (quinta e sexta) e R$ 160,( Sab. e dom.) / 130 minutos com intervalo de 15 minutos/ 14 anos/ até 29 de abril.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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