A vida e o legado de resistência de Michel Fernandes

EM REDE – Michel Fernandes foi importante figura de resistência para arte para a causa LGBTQIA+, pelos cadeirantes, pelo teatro e pela própria vida. Apesar de ter uma doença degenerativa e uma expectativa de vida de 25 anos, Michel disse não a morte várias vezes, fez faculdade, se tornou figura importante no teatro brasileiro, fundou o próprio negócio e nos deixou aos 45 anos, exatamente dia 17 de maio de 2020, com um legado que poucos de nós terá um dia para se orgulhar.

Certa vez, eu perguntei como era para ele ouvir tantas vezes que estava sentenciado a uma degradação, ou pior, ver e visualizar ela diariamente de certa forma. Michel, então, me disse que ele escolheu viver da melhor e mais intensa forma e que não acreditava em previsões ou não teria feito metade das coisas e viveria a esperar pela morte e isso não seria uma opção.

Michel Fernandes era natural de Santo André, e se formou Teatro na Escola Célia Helena (1994) e em Jornalismo na FMU (1999). Foi colaborador da Último Segundo/IG, crítico teatral e colunista do jornal Diário de São Paulo e lançou, em 2002, o site Aplauso Brasil, também responsável pela premiação homônima, uma das mais celebradas pela classe teatral paulista.

Afiliado à APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), Fernandes recebeu o Prêmio Pesquisador 2008 do Arquivo Multimeios do Centro Cultural São Paulo/Secretaria Municipal de Cultura, e o Prêmio Pesquisa em Dança 2006, do ProAC (Programa de Ação Cultura da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo).

Escreveu poesias e crônicas para os sites Mixbrasil, Casa da Poesia e KadeiraSutra. O KadeiraSutra tratava de dois temas tabus: era um guia sobre sexo para cadeirante, o que ele acabou se tornando por conta da doença quando tinha mais de 20 anos, e gays.

O Michel fez da sua história sua vida e trabalho. O teatro, a dança – que o levou até para a Alemanha -, o site que ele fundou e transformou em um dos prêmios mais respeitados…. são muitos feitos e um legado como crítico teatral que olhava acessibilidade, inclusão e diversidade com propriedade.

Sinto falta de enxergar o mundo com os olhos do Michel. De ver como ele comprava brigas importantes para todos nós. Talvez não sem propósito ou de propósito tenha morrido no dia Internacional da Luta contra a Homofobia. A data foi escolhida porque na data, em 1990, o termo “homossexualismo” passou a ser desconsiderado, e a homossexualidade foi excluída da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) da OMS.

Arte é resistência e o Michel dizia em todos os discursos que podia que a arte salvou a sua vida e o fez escolheu fazer, ser e acontecer. A arte é resistência e eu tive a sorte de conhecer alguém que levou essa palavra a outro nível, quase como um sobrenome. Que seu legado viva, alcance pessoas, e inspire a todxs. Obrigades, Michel Fernades!

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!