AGENDA : ESTREIA O ESPETÁCULO INÉDITO NO BRASIL “O ORGULHO DA RUA PARNELL”

Cassiano Leonardo especial para o Aplauso Brasil ( Cassiano@aplausobrasil.com.br)

SÃO PAULO – A peça é uma compilação de monólogos interconectados – interpretados por Alexandre Tigano e Claudiane Carvalho – onde um casal relata minuciosamente o resultado caótico de uma relação de amor que foi ceifada por um ato medonho de violência por parte do marido. A encenação, que tem ainda participação especial do garoto Enrico Bezerra (9 anos) como intérprete de uma canção, utiliza a ambientação natural da galeria como cenário e plateia (o público senta-se nos próprios móveis do antiquário, que também podem ser adquiridos).

O Orgulho da Rua Parnell narra 10 anos dessa complicada e também bela história de amor. Em movimentos delicados – quase paralisados – as personagens descrevem entre lágrimas, risos, tesão e orgulho tudo o que os levou à situação atual. São lembranças pesadas e até insanas, mas permeadas de um amor sem igual. A peça revela o grau de perigo, quase sempre perniciosamente velado, que existe na paixão e o estrago que isso pode provocar, caso esse sentimento seja sublimado ou potencializado em substituição às vontades próprias, fazendo do egoísmo uma arma fatal.

Na obra de Barry as limitações e o controle das emoções vêm no formato de prosa, ao mesmo tempo áspera e macia. Joe Brady é um ladrãozinho insignificante que tem o apelido de “homem-meio-dia”. Ele e sua esposa Janet vivem na periferia de Dublin, na Irlanda, e apesar da vida marginalizada mantêm orgulho de seu lifestyle, como ocorre com a maioria das personagens de Sebastian Barry.

No enredo, a derrota que marcou a desmoralizante desclassificação da Irlanda na Copa do Mundo de 1990, na Itália, cobrou seu preço. E parece que para o casal Joe e Janet a cobrança veio com juros altíssimos. O déficit desses dois foi maior do que o da seleção naquela noite. Alguns anos se passaram e agora eles revelam a intimidade de um amor eterno, mas também a ruptura desastrosa do casamento.

É um início de relação pobre, mas feliz. Ela, mãe aos 16 anos, sofre para criar os três filhos. Ele, apelidado de “midday man”, vive à sombra e água fresca, roubando carros. Eles vão se aturando até que o primogênito Billy morre atropelado por um caminhão de cerveja. Este é talvez o início do fim, não só da relação, mas até mesmo do amor pela Irlanda. Será? Ao voltar para casa, após a quarta de final dos jogos, Joe quase mata a esposa, espancando-a. Desfacelada, ela foge para um abrigo de mulheres, levando as crianças. Apesar da ausência do marido – e pai – ela vai reconstruindo sua vida, enquanto ele se afunda na heroína, nas prisões e sofre com a AIDS.

Segundo o diretor Darson Ribeiro, “O Orgulho Da Rua Parnell se encaixa perfeitamente no contexto teórico e estético de montagens realizadas por ele, como a recente Os Guarda-Chuvas, que discutia a degradação da família culminada com a morte da esposa e mãe, interpretada por Maria Fernanda Cândido”. Ele argumenta que a peça de Barry traz a simplicidade como aliada, respeitando o não naturalismo indicado pelo autor, principalmente na relação interpretativa dos atores. E a direção, então, se apropria da precisão para contar essa trágica história de amor, brincando com o imagético e criando camadas no arquétipo das personagens. “A história é narrada como se ‘esfregássemos’ as situações na cara do espectador. E tudo isso em meio ao acervo da Verniz, uma Galeria que garimpa e recupera mobiliário industrial, localizada no Centro velho de São Paulo, hoje point entre os descolados”.

Sobre o tema “violência contra a mulher”, o diretor ressalta os altos índices e o número de prisões e de mortes que vêm aumentando em vários países, incluindo o Brasil, culminando no dilaceramento familiar. “A sociedade dá pouca atenção para o fato. O teatro tem a função de alertá-la. Desta forma, o Conselho Estadual de Defesa da Mulher, por meio de sua Presidente Rosmary Correa foi o primeiro a credenciar esse projeto”, comenta Darson.

“Vivemos numa época em que cada vez mais o homem, ainda que inconscientemente, vem tentando contar com seus sentidos. É nesse estado que ele, paradoxalmente, provoca em si atitudes que ultrapassam limites da consciência. Só depois, já com o ato consumado, é que busca a qualquer custo se livrar das armadilhas de seu próprio desejo. Assim, empenha-se desmedidamente em valorizar o que era simples, belo e eficaz: o viver… Quase numa espécie de sublimação. Por esse motivo escolhi a Galeria Verniz – um antiquário que tem a delicadeza de misturar objetos com a força de peças e mobiliário industrial, que vai de encontro à ‘cenografia desmantelada’, e ao mesmo tempo aconchegante, do casal protagonista. As pessoas entram e se sentam em pequenos lounges com poltronas e mesas em ambientes íntimos, podendo inclusive comprar não só as peças onde estão sentadas, mas obras de arte, relíquias, sofás, tapeçarias e vasos.” Finaliza o diretor.

FICHA TÉCNICA

Texto: Sebastian Barry
Direção, tradução, Trilha, cenografia e figurino: Darson Ribeiro
Elenco: Alexandre Tigano (Joe) e Claudiane Carvalho como (Janet)
Participação especial: Enrico Bezerra
Iluminação: Rodrigo Souza
Iluminotécnica: LPL Lighting Designer
Consultoria técnica: Capitão Marcelo Nogueira
Edição/trilha: Lalá Moreira DJ
Fotografia: Eliana Souza
Design: gráfico Iago Sartini
Assessoria de imprensa: Eliane Verbena
Suporte de movimento: Gustavo Torres
Assistente de direção 1: Arnaldo D’Avila
Assistente de direção 2: Camila Carneiro
Auxiliar de produção: Eli Barcellos

SERVIÇO

Espetáculo: O Orgulho da Rua Parnell
Local: Verniz Galeria
Rua Álvaro de Carvalho, 318. Centro/SP
Estreia: 14 de janeiro de 2017. Sábado, às 20h
Temporada: sábados e segundas (às 20h) e domingos (às 19h) – Até 19/02
Ingressos: R$ 60,00 (meia: 30,00).
Bilheteria: 1h antes das sessões (aceita cheque e dinheiro).
Classificação: 12 anos. Duração: 75 minutos. Gênero: drama. Capacidade: 50 lugares.
Ingresso online: www.ingressorapido.com.br (4003-1212). Reservas: (11) 97655-3687

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