Alberto Guzik escreveu sobre os 50 anos do Teatro Oficina

O queridíssimo Alberto Guzik

Tive a honra de contar com a participação de Alberto Guzik nos primórdios do Aplauso Brasil, e, numa humilde homenagem de quem admira e se desespera com a impressão de que podia fazer mais, re-publico o que, considero uma pérola, dentre tantas que produziu, em que escreveu sobre os 50 anos do Teatro Oficina. Evoé, Alberto!

Zé Celso: Trajetória de coerências e inquietações

Alberto Guzik, especial para o Aplauso Brasil

Ver os trabalhos de Zé Celso Martinez Correa tem sido para mim, como para muitos outros espectadores, ao longo dos últimos quarenta e tantos anos, um caminho de aprendizado traçado na coerência.

O projeto que, desde sua criação – em fins dos anos 1950 – na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, vem sendo executado pelo teatro Oficina e por seu mentor, Zé Celso (José Celso Martinez Corrêa), impressiona pela organicidade que extrai da diversidade.

Não apenas em tempo, mas principalmente na estética, longo foi o caminho que levou do teatro ao te-ato, do Teatro Oficina para a Cia. Uzyna Uzona, da sala bem comportada de platéias convergentes, transformada depois em um teatro italiano, para o corredor da pista concebida por Lina Bo Bardi e Edson Elito, que liga o ato teatral ao bairro, à cidade.

O germe da inquietação esteve sempre presente em todos os trabalhos realizados pela trupe.

Não vi as primeiras montagens do Oficina. No tempo de A Incubadeira e Vento Forte para Papagaio Subir, de Zé Celso, Fogo Frio, de Benedito Ruy Barbosa, A Engrenagem, de Sartre. Não sabia nada sobre a companhia de estudantes/ atores. A primeira montagem que vi no prédio histórico da rua Jaceguai, que antes chamava-se Teatro Novos Comediantes, se a memória não falha, foi um texto de Augusto Boal, José do Parto à Sepultura, com direção de Antônio Abujamra.

Vieram montagens extraordinárias uma atrás da outra: A Vida Impressa em Dólar, de Clifford Oddets, Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, Todo Anjo é Terrível, adaptada de um romance de Thomas Wolfe, Quatro Num Quarto, comédia russa de Valentin Kataiev, e finalmente, em 1963, uma obra-prima, Pequenos Burgueses, de Górki.

Foi a primeira montagem da fase de grande maturidade do Oficina, que seria seguida por outra obra de Górki, Os Inimigos, e depois por Andorra, de Max Frisch, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, Galileu Galilei e Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht, entre outras.

A idéia, desde aquele início, era refletir sobre o ser humano, sobre a sociedade brasileira. Idéia que foi se intensificando, se aprofundando com experiências radicais, como a tentativa de colaboração com o Living Theatre e uma longa viagem pelo Brasil com o repertório da companhia.

Na medida em que o Oficina radicalizava sua linguagem, a imagem de companhia teatral bem vista pela crítica e pela platéia burguesa foi se alterando sensivelmente. O teatro começou a entrar em terreno cada vez mais provocativo. E Zé Celso sintetizou essas experiências em seu grupo com a montagem de Gracias Señor, uma performance, um happening em que o Brasil da ditadura era visceralmente questionado.

Essa primeira fase, que inclui uma passagem de Zé Celso pelo Rio de Janeiro, onde criou a polêmica Roda Viva, de Chico Buarque de Hollanda, encerrou-se com uma turbulenta e não bem resolvida produção de As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, no início dos anos 1970.

Depois, o Oficina original esfacelou-se, a companhia acabou. Zé Celso partiu para a Europa. O teatro durante bom tempo foi alugado. Até que nos anos 1980 Zé voltou a São Paulo, retomou a sala, demoliu a construção ali existente e passou a lutar feito leão pela concretização do espaço concebido por Lina Bardi.

Só na década de 1990 o projeto saiu do sonho para a prática e iniciou-se então uma nova fase, com As Boas, versão de As Criadas, de Genet, Ham-let, de Shakespeare, As Bacantes, de Euripedes, Mystérios Gozosos, de Oswald de Andrade, Ela, de Jean Genet, e mais O Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, Cacilda! e Os Sertões, de Zé Celso.

Agora, em meio à produção da tetralogia da obra de Euclides da Cunha, pode-se perceber que Zé Celso continua tentando entender o ser humano, o país em que vive, o mundo que o circunda, com a mesma determinação, a mesma fúria, o mesmo gênio que vem desde sempre norteando sua trajetória.

Não é um artista fácil nem tem paciência de estabelecer pactos com os donos do poder. Seu teatro ritualizou-se cada vez mais, abandonou o realismo para enveredar por um crescente teatralismo. Mas o foco, as questões que dizem respeito à intolerância, à repressão, à injustiça, continuam a pavimentar o terreno sobre o qual o diretor e sua equipe se movimentam.

Tem sido realmente um privilégio poder acompanhar ao longo de décadas o trabalho desse criador único, especial, um dos mais prolíficos e importantes da história do teatro brasileiro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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