Alexia Dechamps vive Filha, Mãe, Avó e Puta

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Gabriela Leite, cuja vida virou livro que originou a peça, criou a Daspu

Com direção de Guilherme Leme e adaptação de Marcia Zanelatto do livro autobiográfico de Gabriela Leite, a peça conta a história da prostituta que virou líder política reconhecida no mundo todo

SÃO PAULO – A trilha sonora que o público é recebido ao entrar Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo para assistir Filha, Mãe, Avó e Puta – Uma Entrevista já contribui para o clima do espetáculo: só canções românticas cantadas pelas divas Maysa, Elis Regina, Elizete Cardoso, Maria Bethania, Clara Nunes, Elza Soares. Nada melhor como introdução à inusitada trajetória de vida de Gabriela Leite: filha de um aristocrata paulistano com uma dona de casa analfabeta que frequentou os melhores colégios da capital paulista, entrou na USP onde estudou filosofia e sociologia, mas por ter ficado grávida e ser rejeitada pela mãe, tornou-se prostituta na Boca do Lixo.

De São Paulo, Gabriela tem uma passagem por Belo Horizonte (MG) e depois muda-se para o Rio, onde se instala na Vila Mimosa. Lá, por não concordar com a discriminação e os maus tratos às prostitutas, encabeça movimentos reivindicatórios até criar a Associação Brasileira de Prostitutas, hoje a ONG Davida. É desta agremiação que surgiu a grife Daspu, que além de dar visibilidade às prostitutas, serve como meio de vida para a ONG na luta pelos direitos humanos e combate à Aids entre as prostitutas.

Alexia Deschamps vive Gabriela Leite

Guilherme Leme, que além da direção assina ainda cenografia e trilha sonora, optou por uma encenação contida: Alexia Dechamps na pele de Gabriela entra e senta-se ao lado de Louri Santos, que interpreta um jornalista. Ele, com a ajuda de um lap top, vai relatando o percurso da vida de Gabriela, desde a infância vivida no casarão da Vila Mariana da família aristocrática do pai, a passagem pela USP, a militância política e a guinada na vida dela, com o ingresso na prostituição. As perguntas são intercaladas com explicações e o relato factual da vida da entrevistada.
Com caracterização bem adequada (Alexia está de cabelos pretos e uma maquiagem que a deixa mais velha, já que Gabriela beira os 60 anos), a atriz antes de responder à indagação do jornalista sempre tem uma reação: concorda com o semblante, ri e na maioria das vezes respira fundo antes das respostas.

A iluminação (assinada por Tomás Ribas) segue o tom das respostas: para perguntas amenas, o foco de luz permanece em ambos; no entanto quando as respostas envolvem emoção e passagens difíceis da vida de Gabriela, a luz é diminuída permanecendo somente na atriz.
Filha, Mãe, Avó e Puta – Uma Entrevista, que já esteve em Brasília e Rio e fica por aqui até o dia 19 de abril, mesmo tratando de temas delicados (Gabriela foi rejeitada pela família e precisou abandonar as duas filhas) e da prostituição, ainda tabu para a maioria das pessoas — num determinado momento, ela pergunta ao jornalista se ele tem alguma amiga prostituta e ele constrangido diz que não— é leve e bem-humorada. A plateia se envolve nas histórias de Gabriela Leite e se surpreende com o destemor da personagem, que não só tem orgulho de sua profissão de prostituta como criou os dez mandamentos da categoria, todos com uma pitada de humor e ousadia!

Roteiro:
Filha, Mãe, Avó e Puta – Uma Entrevista
. Baseado no livro de Gabriela Leite. Direção, cenografia e trilha sonora: Guilherme Leme. Codireção: Susana Garcia. Adaptação: Marcia Zanelatto. Elenco: Alexia Dechamps e Louri Santos. Iluminação: Tomás Ribas. Figurino: Ana Roque. Design gráfico: Roberta de Freitas. Preparação vocal: Jaqueline Priston. Visagismo: Leopoldo Pacheco.Fotos: André Gardenberg.

Serviço
Teatro do CCBB/ SP (125 lugares), Rua Álvares Penteado, 112, Tel: (11) 3113-3651/52. Terça a quinta, às 20h. Ingressos:R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia-entrada). Compra antecipada de ingressos: www.ingressorapido.com.br. Bilheteria: de terça a domingo, das 9h às 21h. Acesso para portadores de deficiência.Duração: 60 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 19 de Abril de 2012.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.