Amizade masculina dissecada em Arte

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

''Arte" - crédito André Wanderley

A compra de um quadro de arte contemporânea provoca uma reviravolta na relação entre Ivan, Marcos e Sérgio, vividos por Vladimir Brichta, Marcelo Flores e Claudio Gabriel. Direção de Emílio de Mello

SÃO PAULO – Partir de um fato corriqueiro para discutir temas profundos da relação humana. Mais uma vez a dramaturga francesa Yasmina Reza tem esta intenção com a peça ARTE, em cartaz na cidade, no Teatro Renaissance, depois de grande sucesso carioca.

Assim como fez em Deus da Carnificina — que a briga entre dois garotos na escola provoca um turbilhão na vida de seus pais —, desta vez é um quadro de arte contemporânea (supostamente em branco) adquirido por Sérgio, interpretado por Claudio Gabriel, causa uma revolução na relação de amizade entre ele e Marcos e Ivan, vividos por Marcelo Flores e Vladimir Brichta. Mais do que discutir conceitos estéticos das artes plásticas, os três rapazes entram numa briga visceral, trazem à tona rugas antigas, pontos de vista diversos sobre a vida, colocando, inclusive, em cheque a amizade entre eles.

Com tradução e direção assinadas por Emílio de Mello, a montagem é totalmente despojada, com os atores se desdobrando como contrarregras na montagem dos ambientes de cada cena — são poucos elementos cênicos que caracterizam os apartamentos dos personagens. E também são os próprios atores que executam a trilha sonora (tocam instrumentos e acionam o equipamento), o que torna natural a sintonia entre palco plateia.

''Arte" - crédito André Wanderley

A cena inicial já vai ao âmago da discussão: o quadro é colocado estrategicamente em foco por Sérgio para que Marcos aprecie e dê sua opinião. A reação é um riso espontâneo e a desaprovação imediata à obra, principalmente quando o amigo sabe o valor pago por Sérgio. Eles se desentendem e Marcos procura Ivan para contar o ocorrido. Ivan, mais moderador, ouve atentamente o amigo e visita o outro; como não se expõe explicitamente, surge a discórdia entre os três. O que menos importa na discussão é o valor artístico do quadro: é a partir dele que as desavenças entre os amigos aparecem.

O modo de encarar a vida, princípios, valores, sentimentos são questionados a fundo. Os três põem do avesso a relação deles. O que mais me impressionou no espetáculo é a forma como a autora encontra para chegar ao denominador comum.

O texto apropria-se de situações corriqueiras e mundanas e nos devolve toda uma discussão sobre questões da sociedade e do mundo contemporâneo.”, afirma Emílio de Mello.

Vladimir Brichta, que pela primeira vez produz um espetáculo — tem como parceiros seu colega de palco Marcelo Flores e o diretor — confessa estar fascinado com a peça, que assistiu em Buenos Aires:

“Yasmina usa com maestria do humor : de forma corrosiva, destrói o verniz social e nos expõe a todos de forma demasiadamente humana”.

Além do texto da dramaturga francesa cativar por sua proposta tragicômica, ARTE enlaça o espectador graças à interpretação afinada e em perfeita sintonia entre os três atores.

Destaque também para o figurino de Marcelo Olinto e a iluminação de Tomás Ribas.

Roteiro:

ARTE. Texto: Yasmina Reza. Tradução e direção: Emilio de Mello. Elenco: Vladimir Brichta, Marcelo Flores e Claudio Gabriel. Cenário: Aurora Campos. Figurinos: Marcelo Olinto. Iluminação: Tomás Ribas. Criação musical: Marcelo Alonso Neves. Fotos: André Wanderley. Produção executiva: Wagner Pacheco. Produtores: Emílio de Mello, Marcelo Flores e Vladimir Brichta.

Serviço:

Teatro Renaissance (462 lugares), Al. Santos, 2233, tel. 3069-2286. Horários: sextas às 21h30, sábados às 21h e domingos às 18h. Ingressos: R$80,00. Bilheteria: de terça a sábado das 14h às 20h; domingo das 14h ás 19h. Pagamento: cartões, dinheiro ou cheque. Vendas: 4003-1212 e www.ingressorapido.com.br. Duração: 90 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 07 de outubro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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