Antonio Fagundes vive pintor Mark Rothko em Vermelho

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Vermelho" - Foto Ivan Abujamra

Ao lado do filho Bruno, o ator protagoniza um duelo de gerações entre o artista consagrado e seu assistente. Montagem dirigida por Jorge Takla inaugura o teatro GEO, no Instituto Tomie Ohtake

SÃO PAULO  – Numa coprodução do ator Antonio Fagundes e do diretor Jorge Takla, a montagem de Vermelho, texto do roteirista e dramaturgo norte-americano John Logan, além de inaugurar o belíssimo teatro GEO, com 627 lugares, dentro do Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, é encenada pela primeira vez no Brasil. A peça estreou em 2009 em Londres e no ano seguinte arrebatou diversos prêmios na Broadway/Nova York, inclusive o de melhor espetáculo.

A trama (traduzida por Rachel Ripani) gira em torno do duelo de gerações entre o consagrado pintor russo (naturalizado norte-americano) Mark Rothko e seu assistente Ken.

Mais do que a entrega de bastão do artista mais velho para o iniciante, a peça discute a relação do mercado com a obra de arte, além das diferentes visões de mundo, ideologia e modo de encarar a vida entre os dois personagens.

A montagem brasileira traz um elemento a mais: como no palco Rothko e Ken são interpretados por pai e filho, o duelo de gerações fica ainda mais evidente para a plateia.

Mark Rothko suicidou-se em 1970, aos 67 anos; no entanto a peça é um recorte de apenas dois anos na vida do artista plástico: tudo se passa entre 1958 e 59 quando ele estava em seu ateliê de Nova York produzindo a série de murais para o restaurante Four Seasons, no Edifício Seagram, encomenda feita a ele por uma quantia recorde para a época. Para auxiliar neste trabalho, ele contrata o assistente Ken e é deste encontro que surge uma relação no mínimo inusitada.

Se no início o rapaz se mostra inexperiente e submisso à arrogância e ironia do mestre, com o passar do tempo Ken amadurece e passa a questionar com fortes e seguros argumentos a postura de veterano pintor.

A grande atração de Vermelho é justamente esta relação criada entre os dois artistas: em embates calorosos Rothko tenta passar ao jovem pintor toda sua experiência profissional e de vida; entretanto é o rapaz que, ao final, consegue por em xeque o consagrado artista.

Bruno Fagundes vive Ken

Jorge Takla, além de dirigir, assina a cenografia e divide a iluminação com Ney Bonfante: ambos os elementos (luz e cenário) são essenciais para a concepção cênica da trama. O cenário reproduz o ateliê de grandes dimensões Rothko em Nova York, que possuía uma iluminação específica:
Vermelho é uma obra exigente que, como Rothko, nos leva a criar um clima de luzes delicadas, um ambiente suave para valorizar as obras e deixá-las pulsantes e vivas. Aliás, a luz foi um dos desafios da montagem, pois Rothko dizia que uma obra vive por simbiose, precisa do olhar empático do observador e, por isso, ele tinha que protegê-la, controlando a luz, a altura em que ela está exposta, a distância do observador; senão a obra poderia morrer desprotegida”, conta o diretor.

Vermelho é um espetáculo que prende a atenção do público principalmente pela simbiose criada entre os dois personagens: em diálogos profundos, às vezes até cortantes, mas também de muita emoção, os atores são exigidos no grau máximo. E aí é que a montagem ganha maior dimensão: falar do talento e carisma de Antonio Fagundes não acrescenta muito.

No entanto, o ator surpreende na composição do velho e neurastênico pintor: o figurino de Fábio Namatame (calças sociais com cinto colocado acima da barriga) contribui muito para deixar o ator obeso e ao mesmo tempo prepotente, marca de Rothko.

E Bruno Fagundes, pela primeira vez contracenando com o pai no palco, é outra grande surpresa: traz os holofotes para si na composição do jovem pintor que sai de uma postura ingênua para se mostrar ao final um promissor artista plástico. Nos diálogos finais, vemos dois atores de extrema grandeza e talento.

Roteiro:
Vermelho
. Texto: John Logan. Tradução: Rachel Ripani. Direção e cenografia: Jorge Takla. Elenco: Antonio Fagundes e Bruno Fagundes. Iluminação: Ney Bonfante e Jorge Takla. Figurino: Fabio Namatame. Fotografia João Caldas.

Serviço:
Teatro GEO (627 lugares), Rua Coropés, 88 (próximo ao metro Faria Lima), tel. 3728.4930 Horários: quinta e sábado, às 21h; sexta, às 21h30 e domingos, às 18h.Ingressos: Platéia R$ 120,00 e Balcão R$ 100,00. Duração: 80 minutos. Classificação:12 anos. Estacionamento: valet c/ manobrista. Horário da bilheteria: terça, quarta e domingo das 12 às 20h; quinta, sexta e sábado das 12 às 21h.  Vendas para o dia do espetáculo serão encerradas 15 minutos antes do inicio. Vendas: na bilheteria, aceitam-se cartões de crédito e débito ou dinheiro; ou pelo site: www.showcard.com.br . Venda para grupos: grupos@takla.com.br ou tel. (11) 7571.3537

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.