Artigo: Peça lança olhar terno e profundo para a velhice

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

"À Beira do Abismo me Cresceram Asas"
“À Beira do Abismo me Cresceram Asas”

À Beira do Abismo me Cresceram Asas, de Maitê Proença, reflete sobre a vida por meio da experiência de duas idosas de gênios opostos e que moram no asilo. Maitê divide o palco com Clarisse Derzié Luz e a direção com Clarice Niskier

SÃO PAULO – Depois de viajar pelo país, a peça
À Beira do Abismo me Cresceram Asas chegou à cidade e permanece em cartaz no Teatro FAAP até agosto. O espetáculo tem assinatura da atriz Maitê Proença: a partir da pesquisa de Fernando Duarte, ela escreveu a peça e dirige em parceria com Clarice Niskier, além de atuar ao lado de Clarisse Derzié Luz.

O enredo traz duas velhinhas viúvas, de temperamentos completamente diferentes, que se conheceram no asilo e viraram grandes e inseparáveis amigas. Terezinha, vivida por Maitê, tem 86 anos e é um tanto aborrecida por ter de morar no asilo, já que tem três filhos, que nunca a visitam; já Valdina, de 80 anos, papel de Clarisse, é alegre, otimista e só pensa no presente (na verdade, recusa-se a lembrar do passado).

Elas se completam e, em suas conversas diárias, refletem sobre o tempo, amizade, sexo, amor e sobre as delícias de viver. E como têm grande experiência, questionam o sentido da vida e da morte.
O público ao entrar na sala já é envolvido no clima do espetáculo: as duas atrizes já estão em cena, cada uma de um lado do palco, terminando a maquiagem e arrumando o figurino. E como som ambiente, músicas do cancioneiro nacional que são tocadas no asilo e que dizem respeito ao universo das duas velhinhas.

A diretora, no programa da peça, conta que elas receberam a orientação e supervisão de Amir Haddad para a composição das personagens:

Ele nos indicou que não fizéssemos composição de velhas, mas que pensássemos no arquétipo feminino delas. Envelhecer não é se fechar, é sobre isso a nossa peça”, afirma Clarice Niskier.

Já Maitê tem uma definição muito clara sobre Terezinha e Valdina:

Nossas velhas são porretas, contam histórias, falam de tudo sem medir palavras. São inteligentes, perspicazes e muito amigas. Valdina é uma mistura de Dercy Gonçalves e Ivete Sangalo e a Terezinha é uma Laura Cardoso. São complementares e juntas podem tudo!”.

"À Beira do Abismo me Cresceram Asas"
“À Beira do Abismo me Cresceram Asas”

Além das conversas entre as duas amigas, outro recurso utilizado no texto é uma entrevista que Terezinha concede a um repórter imaginário, que pode muito bem ser a própria plateia. Como num monólogo, a personagem discorre sobre sua experiência de vida e diz que não se vê só como uma velha, mas que dentro dela convive a criança que tinha sonhos, a adolescente enamorada, a mulher casada e mãe de filhos, além da avó dos dias atuais. Este recorte da peça me deixou muito emocionado.

O cenário simples e extremamente prático (assinado por Cristina Novaes) é um dos destaques de À Beira do Abismo me Cresceram Asas, que tem como ponto alto a interpretação sensível e generosa de Maitê e Clarisse. A entrega total das duas atrizes às personagens emociona e envolve o público.

Este espetáculo me remeteu a outro de grande sucesso e impacto, Uma Relação Tão Delicada, de Maria Adelaide Amaral, com Irene Ravache e Regina Braga, em que a velhice também era tratada com delicadeza e profundidade.

Imperdível, principalmente para mamães e vovós de todas as idades!

 

Roteiro:

À Beira do Abismo me Cresceram Asas. Texto: Maitê Proença. Texto original: Fernando Duarte. Supervisão de direção: Amir Haddad. Direção: Clarice Niskier e Maitê Proença. Elenco: Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz. Cenário: Cristina Novaes. Desenho de luz: Jorginho de Carvalho. Figurinos: Beth Filipecki. Trilha sonora: Alessandro Perssan. Fotografia: Renata Dillon. Visagista: Cristiane Vicente. Produção executiva: Fernando Duarte. Realização: Nove Produções.
Serviço:

Teatro FAAP (506 lugares), Rua Alagoas, 903, tel. 3662-7233. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: sexta e domingo R$ 70 e sábado R$ 80 (50% estudantes, aposentados, idosos). Bilheteria: quarta a sábado das 14h às 20h e domingo das 14h às 17h. Aceitam-se cartões. Estacionamento: gratuito com vagas limitadas; finais de semana e feriados todos os carros estacionam gratuitamente. Televendas: (11)3662-7233 e (11)3662-7234 com taxa de 15%. Duração: 75 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até 18 de agosto de 2013.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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