Artigo: A morte de Migliaccio e o pavor do retorno

ELES NÃO USAM BLACK-TIE, Teatro de Arena, 1958

NA REDE – Quem não sentirá saudades daquele grande artista que fez parte da vida de diferentes gerações de telespectadores? Inúmeros e marcantes personagens ganharam vida e admiração na pele de Flávio Migliaccio nas telinhas de nossa casa. Mas seu legado artístico é teatral.

Estreou em 1956, em Julgue Você, no Teatro de Arena. Ao lado de eugênio Kusnet, Guarnieri, Lélia Abramo, Nelson Xavier, Miriam Mehler, entre outros, esteve na antológica montagem inaugural (1958 no Teatro de Arena) de Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfranchesco Guarnieri, que, pela primeira vez, trouxe o brasileiro comum à cena. Fez peças de Odovaldo Vianna Filho, Augusto Boal, trabalhou em peças do Teatro Oficina, TBC (Teatro Brasileiro de Comédia).

No cinema esteve em produções marcantes como Terra em Transe, dirigido por Glauber Rocha, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, direção de Roberto Santos, entre outros. Foi roteirista de diversos programas de televisão, diretor, autor de teatro e premiado ator de televisão, enfim, um artista maiúsculo.

Descontente com os rumos do país e do mundo, tendo passado pela Ditadura Militar, sua repressão, censura, violência desmesurada, sobretudo relativa à livre expressão artística e o assombro que o cerceamento do direito de pensar esteja à beira de retornar – mesmo depois tanta luta pela Democracia – graças à ignorância das pessoas que pedem a volta do AI-5; descontente com a humanidade, enfim, Migliaccio preferiu, por conta própria, deixar a vida para não ver um possível retorno aos fantasmas do passado.

Lima Duarte gravou um vídeo em homenagem ao ator dizendo entender o mesmo:

“Agora, quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrível de 68, agora, 56 anos depois, quando eles promovem a devastação dos velhos, não podemos mais. Eu não tive a coragem que você teve”, afirmou Duarte.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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