Artigo: Algumas considerações sobre o FIT 2010

Michel Fernandes*, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

"Las Julietas" com entrada gratuita

Começo este artigo declarando sua parcialidade. Primeiro por que acompanhei apenas os primeiros quatro dias do FIT – Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto e, mesmo assim, precisei escolher entre esse ou aquele espetáculo, vez que a programação cresceu. Sem dúvidas, o conceito do FIT 2010, A Conquista da Singularidade, permeou todo o festival. Para o bem e para o mal.

Como comentado em Abertura do FIT 2010 celebra a arte do palco, o espetáculo Antes, da Armazém Cia. de Teatro, realizou singela ode ao teatro, clareando, com citação de A Tempestade,de Shakespeare, que diz: “somos feitos da matéria dos sonhos”, clara alusão àqueles que se dedicam às artes.

Uma das estreias do FIT 2010, Marcha Para Zenturo, texto de Grace Passo, do grupo Espanca!, e direção de Luiz Fernando Marques, do Grupo XIX de Teatro, duas companhias teatrais, de Belo Horizonte e São Paulo, que se enquadram no vetor sério da pesquisa cênica, dessa vez deixou o público e a crítica frustrados. O texto tem ideias que não conseguem libertar-se do lugar-comum e o mote futurista é juvenil porque não há estofo que o sustente. Mas nem tudo está perdido se houver coragem para fazer cortes que optem por menos referências – a alusão à trama de A Gaivota, de Tchekhov, acaba por prolongar, desnecessariamente, a peça.

Discutir o processo de identificação é o objetivo de Otro, de Enrique Diaz,com a companhia Teatro do Improviso, que se utiliza da estrutura literária de Clarice Lispector, dança, vídeo, entre outros recursos, para criar um espetáculo cuja característica premente é de um work in progress. Nota-se, também, certa semelhança com a dança-teatro de Pina Bausch em sua diretriz deformar frases corporais que digam, ou sugiram, imagens que superam a linguagem verbal. O trabalho traz a marca divertida dos espetáculos de Diaz e a teatralidade expressa, inserindo o espectador no processo. Não é peça completa, é trabalho em quem se pesquisa formas diferentes de se utilizar os instrumentos teatrais.

Criado em 2002 e retomado nas comemorações dos 10 anos da Cia. Elevador Panorâmico, A Hora em Que Não Sabíamos Nada Uns dos Outros, de Peter Handke, a montagem regida por Marcelo Lazzarato foi uma bela orquestra em que imagens, músicas, ruídos eletrônicos e produzidos pelos atores, dialogou com a paisagem urbana – a Praça da Independência – e provocou nos espectadores uma espécie de alargamento quando se depararem, doravante, com tipos comuns como carteiros.

O Uruguai fez rir com Las Julietas,uma versão nonsense de Romeu e Julieta, de Shakespeare, em que quatro excelentes atores narram a tragédia, condimentando com suas críticas aos fatos e personagens do texto, e a colocam nos anos 1950 onde inserem dados do Uruguai e um texto do surrealismo.

*Michel Fernandes viajou a convite do FIT

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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