Artigo: Clássico de Pirandello questiona a verdade

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

ASSIM É (SE LHE PARECE)
ASSIM É (SE LHE PARECE)

Com humor e suspense, montagem de Assim é (se lhe parece), dirigida por Marco Antônio Pâmio, traz 12 atores em cena para dissecar as várias versões de um fato, que no fundo não passam de bisbilhotice de toda uma comunidade

SÃO PAULO – Mesmo tendo sido escrita em 1917 por Luigi Pirandello, a peça Assim é (se lhe parece) é mais atual do que nunca, pois revela uma das características marcantes dos Homens: a mania pela curiosidade da vida do outro, a fofoca e a bisbilhotice. Com direção deMarco Antônio Pâmio, a peça acaba de estrear no SESC Vila Mariana e traz no elenco 12 atores — coisa rara nos dias de hoje!

ASSIM É (SE LHE PARECE)
ASSIM É (SE LHE PARECE)

A trama central gira em torno da chegada de uma família numa província do interior da Sicília, no sul da Itália, após sobreviver a um terremoto. O que provoca a curiosidade da população local é o fato de que eles moram em locais diferentes, o núcleo familiar em uma residência e a sogra em outra. Genro e sogra têm versões opostas para este fato, o que deixa os cidadãos ainda mais curiosos para saber a verdade; eles não se cansam para elucidar o porquê de uma única família não morar sobre o mesmo teto.

ASSIM É (SE LHE PARECE)
ASSIM É (SE LHE PARECE)

Cenas de muito humor, recheadas de suspense, prendem a atenção do público desde a primeira cena.

Além de morarem em casas separadas, a senhora Frola, vivida por Bete Dorgam, visita a filha diariamente, mas apenas à distância. Ela diz que em razão da possessividade do genro, Sr. Ponza (Nicolas Trevijano), mãe e filha não podem ter contatos íntimos. Já o genro diz que a sogra tem problemas psiquiátricos, pois não admite que sua filha morreu há anos; por isso ele pede que sua segunda esposa se passe pela filha da Sra. Frola.

ASSIM É (SE LHE PARECE)
ASSIM É (SE LHE PARECE)

Estas versões distintas do fato é que aguça a curiosidade dos moradores locais, que promovem um verdadeiro tribunal informal para se chegar à verdade.
O enredo original se passa no início do século XX, mas o diretor resolveu transpô-lo para 1940, numa época intermediária entre o tempo original e a atualidade:
“A mudança de época se deu diante da necessidade: manter uma mulher trancafiada, incomunicável nos anos 40 é plausível, mas totalmente irreal para os tempos atuais, da era da comunicação digital em tempo real. Temos assim uma história que nos faz refletir sobre a tal da curiosidade obsessiva sobre a vida alheia, tão característica dos nossos dias, mas não deixamos de lembrar que ela se passa numa outra época”, explica Pâmio.
Mais do que revelar o lado patético das pessoas que param tudo o que estão fazendo para bisbilhotar a vida alheia (o uso das redes sociais hoje virou mania), Assim é (se lhe parece) propõe uma discussão ainda mais profunda, a da impossibilidade de se chegar a uma única verdade. Na peça o personagem de Rubens Caribé, Laudisi, funciona como alterego de Pirandello e questiona a atitude dos cidadãos, indicando as várias possibilidades de entendimento para o mesmo fato:
“Para Pirandello, não existe uma só verdade, mas diferentes pontos de vista. Não existe um só homem, mas diversas máscaras que vestimos no dia-a-dia, desde a hora em que acordamos até a hora em que dormimos. Portanto, não existe uma verdade absoluta”, afirma Caribé.
O que cativa nesta montagem é sem dúvida o texto muito bem articulado, que mescla humor, ironia e suspense (o diretor deixa a revelação da filha da sra. Frola para o final, sempre mantendo a dúvida). A interpretação coesa de todo o elenco é outro grande destaque de Assim é (se lhe parece), que também traz a criatividade de Fabio Namatame, que assina cenário e figurino e uma trilha sonora, assinada por Marco Antônio Pâmio, bem ajustada à trama.
O espetáculo fica em cartaz só até a segunda quinzena de maio. Não perca!

 

Roteiro:

Assim é (se lhe Parece). Texto: Luigi Pirandello. Tradução: Sérgio Nunes Melo. Direção: Marco Antônio Pâmio. Assistência de direção: Gonzaga Pedrosa. Elenco: Bete Dorgam, Rubens Caribé, Joca Andreazza, Nicolas Trevijano, Martha Meola, Fábio Espósito, Regina Maria Remencius, Ella Bellissoni, Hugo Coelho, Mara Rúbia Monteiro, Amanda Hayar e Luís Deschamps. Cenários e figurinos: Fabio Namatame.  Iluminação: Caetano Vilela. Fotografia: Heloísa Bortz.  Produção Executiva: Gustavo

Serviço:

Teatro do Sesc Vila Mariana (608 lugares), Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, tel: (11) 5080-3000. Horários: sextas e sábados às 21h e domingos às 18h. Ingressos: R$ 35,00 (inteira), R$ 17,50 (meia-entrada), R$ 7,00 (comerciário). Classificação: 12 anos. Duração: 90 minutos.Temporada: até 18 de maio.

 

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*