Artigo: “Domínio Público” trata de arte e protestos pela palavra e conhecimento

Curitiba – O espetáculo Domínio Público foi talvez o que mais gerou expectativa em torno do aclamado Festival de Curitiba, o maior de arte do Brasil. O espetáculo reuniu quatro personagens que colocaram a arte e seus limites (sociais) no debate público: Maikon K ficou conhecido como “o homem nu da bolha”, Renata Carvalho, como “a travesti que interpreta Jesus”, Wagner Schwartz como “o homem nu do MAM” e Elisabete Finger como “a mãe do MAM” (a mãe que permitiu que sua filha tocasse o tornozelo do homem nu). O mistério em torno da obra que se criaria a partir das quatro histórias quase lotou (os 700 lugares) do Teatro da Reitoria.

Foram os curadores do evento, Guilherme Weber e Márcio Abreu, que convidaram os quatro para criarem algo em torno do tema. Eles que até em tão permaneciam cautelosos quanto a declarações, toparam e surpreenderam. O espetáculo não é uma resposta explícita e confronta o que é arte com a ideia do conhecimento.

Pertinente. Três desses performers foram questionados enquanto habitavam um museu. Wagner fazia seu espetáculo La Bête, no MAM, e a coreógrafa Elisabete levava sua filha, menor de idade, para assistir. Ela mesmo sem estar com artista no local foi julgada como tal. “Para deixar uma coisa dessas (uma filha pegar num homem nu) só pode ser artista, gente normal não faria isso”. Ouvi essa frase em um inofensivo almoço de família. Maikon, por sua vez, estava em frente ao Museu Nacional da República, em Brasília, com o DNA de Dan, quando foi preso por estar nu, em uma performance. E claro, que Renata também desafiou a ordem das coisas ao interpretar Jesus. Ela uma travesti. Um escândalo. Todos debates em torno do que é permitido naquilo que é de Domínio Público.

Se a nudez feminina é celebrada na televisão e nos bares, a dos homens, em público, é pecado perigoso. Igualmente, uma travesti resolver que pode ser jesus, mesmo que seja uma forma de criticar padrões e a própria sociedade. Jesus do Domínio Público é aquele rapaz renascentista: de cabelos lisos compridos e olhos claros. Como ousaria alguém mexer nisso? Imagine, então, uma mãe que ousa apresentar uma arte a filha que não seja indicada para menores, como um filme inofensivo da Disney. A sociedade logo intervém e diz que está errado, distribuiu receitas.

Wagner recebeu mais de 150 ameaças de morte. No mundo das artes poucos são os travestis e se os têm, seu lugar de estereotipado. Um museu – lugar de debate – é agora um forte de obras caras. Tocar, interagir ou o que seja pode causar mal-estar. E assim criamos uma geração (e gerações) que devem se escandalizar diante do próprio espelho após o banho e incapazes de pensar a um estímulo diferente. A filha da Elisabete, nesse sentido, promete ser um ponto fora da curva.

O espetáculo nada mais é que uma aula de arte na modernidade, nada do tipo tradicional e nem poderia.  Não há atores em cena. Com a presença constante de Monalisa de Leonardo da Vinci como pano de fundo, os quatro se revezam no palco para discutir arte de verdade e de mentira, Fake News e polêmicas que alçam a fama. As versões em várias línguas de um roubo da obra são citadas. A fonte? Wikipedia. Seria Monalisa mulher ou homem? Amante ou pessoa respeitável? Pesquisas de institutos sérios são citadas. Difícil pensar que alguém duvide da instituição acadêmica, não é mesmo? Se vem de lá é aceito.

O que é aceito, de onde vem e o que vem são tratados na peça de forma natural. Como em uma aula sobre Monalisa e as questões que a envolvem. Ela, como um quadro que é não reage a nenhuma infâmia ou elogio. E talvez por isso, as obras vivas sejam tão inseguras. O Jesus quase nu podemos tolerar, desde que na versão aceita e criada na mesma época do que o retrato de Monalisa.

Um rapaz na plateia diz, em um debate após a peça, que aquilo devia sair dali, para fora da arte pela arte. A plateia de ontem era quase toda de artistas ou pessoas da arte. E esse é nosso maior desafio: como chegar e discursar para o outro (diferente). O papel da arte é esse. Mas, no mundo em que tudo é questão de domínio público e fatos consagrados essa missão é difícil. O Festival de Curitiba faz o seu papel. E que essa ideia voe. Que o debate não seja violência e ameaça, mas tenha a palavra como força.

Nem sempre vamos concordar. O Blog do Arcanjo, do Uol, contou que na estreia, no mesmo Festival de Curitiba, na quarta-feira (28), uma mulher foi vaiada após gritar que tinha pagado um ingresso para ser teatro e não política. A  que pese o desrespeito à arte de interromper uma obra,  a indignação da mulher que assistia Manual de Autodefesa Intelectual é uma manifestação e a vaia também. O importante é que, de alguma forma, ela continuou lá sentada até o fim. Provocar é vocação da arte. O que não vale é ódio e desrespeito. E essa é a maior lição de Domínio Público. O poder da palavra é por si só transformador e a violência ´mata a palavra e também a possibilidade de arte.

O Festival de Curitiba
O Festival vai até dia 8 de abril. A programação tem a Mostra de Teatro, a Fringe, Mostra independente, A Guritiba, para crianças, O MishMash, para a família, o Risorama, com Stand up, Gastronomix e muitas outras atividades. Para saber tudo, acesse o site oficial do evento.

Foto: Annelize Tozetto

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

Kyra Piscitelli viajou a Curitiba a convite do Festival. 

 

 

 

 

 

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*