Artigo: Luiz Villaça dirige texto inédito de Arthur Miller

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

"A Descida do Monte Morgan"
“A Descida do Monte Morgan”

A Descida do Monte Morgan, escrito em 1991, é encenado pela primeira vez no país: um bem-sucedido empresário que mantém duas famílias vê seu mundo ruir depois de um acidente. Com Ary França, Lavínia Pannunzio e Lu Brites

SÃO PAULO – Depois da estreia de sucesso (Sem Pensar, de Anya Reiss, encenada em 2011), o diretor e cineasta Luiz Villaça volta aos palcos. Desta vez optou pela peça inédita no Brasil, A Descida do Monte Morgan, que acaba de estrear no Teatro Nair Bello, do dramaturgo norte-americano Arthur Miller.

Nesta comédia dramática, o empresário do setor de seguros, Lyman Felt, interpretado por Ary França, vê seu mundo se transformar radicalmente depois que sofre um acidente de automóvel.

Bem-sucedido nos negócios, Lyman é acima de tudo fiel a seus sentimentos: casado com Theodora, interpretada por Lavínia Pannunzio, e pai de Bessie (Paula Ravache), ele ama Leah (Lu Brites), com quem tem outro filho pequeno. As duas famílias se conhecem na sala de espera do hospital em que Lyman está internado e, mais do que bigamia, o dramaturgo discute fidelidade, traição, posse nos relacionamentos afetivos — temas tão em voga nos dias atuais — e a questão central da trama: é possível ser fiel a seus sentimentos sem magoar as pessoas que ama?

"A Descida do Monte Morgan"
“A Descida do Monte Morgan”

Numa linguagem ágil e com a trama se desenrolando em vários momentos da vida do protagonista, o espectador se envolve de cara com a história. Tudo começa com Lyman no leito hospitalar sendo cuidado pela enfermeira Logan (Ju Colombo): ele aos poucos toma consciência do acidente e se apavora quando sabe que sua mulher e filha chegaram para visitá-lo. Sem saber o porquê de tanto desespero, a enfermeira avisa às duas para que voltem outra hora; neste momento Leah chega para visitar o marido e na sala de espera a verdade vem à tona: ambas são casadas com o mesmo homem, que acabara de ser atendido depois de um grave acidente de carro.

O curioso desta cena é ter Lyman assistindo a tudo, como se fosse um ser invisível. As cenas subsequentes alternam o presente e o passado e é quando a tese de Miller vai se firmando: o empresário, mesmo com a sua bigamia sendo desmascarada, confessa amar as duas mulheres e em e nenhum momento se mostra arrependido.

“É possível ser fiel a si e aos outros ao mesmo tempo?”

Como na maioria de sua obra — o clássico A Morte do Caixeiro Viajante e ainda Depois da Queda e O Preço – em A Descida do Monte Morgan o dramaturgo faz um retrato irônico e até sarcástico da sociedade norte-americana. Por intermédio da tragédia pessoal de Lyman, Miller critica a sociedade consumista contemporânea e questiona seus valores comportamentais.

Segundo Luiz Villaça, Arthur Miller “é genial, não tem uma palavra fora do lugar”. Já Ary França questiona:

“Esse texto trata da liberdade e seus limites, além da culpa, que vem sempre acompanhando esta questão. Ao assistir a esta peça o espectador vai se perguntar, até com certo humor, o que fazer com o seu desejo, com a sua vida. É desse desejo que você quer as coisas?”, indaga o ator.

Com um cenário, assinado por Márcio Medina, rico de adereços e objetos dispostos pelo palco, e a iluminação precisa de Wagner Freire, A Descida do Monte Morgan se destaca pela afinada interpretação de Ary, Lavínia e Lu: seus personagens se completam entre embates vigorosos e encontros afetivos.
Não perca, a peça permanece em cartaz até 14 de julho.

Roteiro:
A Descida do Monte Morgan
. Texto: Arthur Miller. Tradução: Rodrigo Haddad. Direção geral: Luiz Villaça. Elenco: Ary França, Lavínia Pannunzio, Lú Brites, Fábio Nassar, Jú Colombo e Paula Ravache. Cenografia e figurinos: Márcio Medina. Iluminação: Wagner Freire. Trilha sonora: Fernanda Maia. Visagismo: Simone Batata. Fotografia: João Caldas e Willy Biondani. Programação visual: Rodolfo Rezende. Assistente de direção: Kauê Telolli e Samya Pascotto.

Serviço:
Teatro Nair Bello (200 lugares), Shopping Frei Caneca, Rua Frei Caneca, 569, 3º andar, tel: 3472-2414. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 18h. Ingressos: R$ 40. Ingressos: R$ 40 (sex) e R$ 50 (sáb e dom). Bilheteria: de terça a sexta, das 14h às 21h30; sábado das 14h às 21h e domingo das 14h às 18h. Aceitam-se cartões débito e crédito; não se aceita cheque. Venda: www.ingresso.com e tel. 4003-2330. Duração: 100 min. Classificação: 14 anos. Temporada: 14 de julho.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.