Artigo: Marcio Aurelio e Razões Inversas fecham trilogia Anatomia Comparada

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Clóvis Gonçalves e Paulo Marcello em "Anatomia Woyzeck"
Clóvis Gonçalves e Paulo Marcello em “Anatomia Woyzeck”

Anatomia Woyzeck reúne fragmentos da peça Woyzeck, escrita em 1837 pelo alemão Georg Büchner, em que um soldado é condenado e executado pelo assassinato de sua mulher. Em cartaz no CCSP até final de junho

SÃO PAULO – Depois da grande repercussão junto ao público e crítica de Agreste e Anatomia Frozen, o diretor Marcio Aurelio e a sua Cia Razões Inversas resolveram encerrar a trilogia Anatomia Comparada — que discute a natureza da mente humana e a violência social —, justamente com um texto escrito no século XIX e que mostra o processo mental e as circunstâncias em que o soldado Woyzeck assassina sua mulher. Anatomia Woyzeck, em cartaz até o final de junho no CCSP, sala Jardel Filho, é composta de fragmentos da peça inacabada Woyzeck, de Georg Büchner, que faleceu aos 24 anos, em 1837, quando escrevia este texto.

Em cena os três atores, Paulo Marcello, Washington Luiz e Clóvis Gonçalves, se dividem em diversos papéis, alternando-se nos personagens da trama.

Como a peça original ficou sem o desfecho, o diretor e os atores resolveram montar o espetáculo como um grande quebra-cabeça, com as cenas sendo apresentadas em ordem aleatória, sem seguir uma cronologia. Assim, o público é obrigado a construir a trama na medida em que os fatos são narrados, não necessariamente seguindo a linha do tempo. Neste formato e com os atores se revezando em todos os papéis, o espectador precisa ficar atento aos mínimos detalhes, o que intensifica a interação entre o que está sendo narrado e sua recepção.

Paulo Marcello em "Anatomia Woyzeck"
Paulo Marcello em “Anatomia Woyzeck”

A história é baseada em fatos reais de um assassinato passional ocorrido na Alemanha. No entanto, o que mais importa na montagem da Cia Razões Inversas não é o fato em si, mas o que se passa na mente daquele soldado até cometer o crime, o que o levou ao ato criminoso. Aí entra uma gama de sentimentos, como ciúme, inseguranças, raiva, destempero emocional e limitações psíquicas.
O destaque de Anatomia Woyzeck é exatamente o que define o trabalho de Marcio Aurelio e a Cia Razões Inversas: a sintonia perfeita entre encenador — que também assina iluminação, cenografia e figurino — e os atores.

É uma delícia constatar como cada ator compõe o mesmo personagem; por exemplo, a garota sensual que é assassinada pelo soldado ganha colorido, características e trejeitos bem peculiares quando é interpretada por Paulo Marcello. O mesmo ocorre quando Clóvis Gonçalves e Washington Luiz dão vida a esta mulher. O espectador percebe as nuances de composição dos atores para cada personagem e, assim como a trama, ele vai construindo os personagens como um quebra-cabeça.

A peça está fazendo sua estreia nacional em São Paulo e permanece em cartaz até 30 de junho. Não deixe de conferir.

Roteiro:
Anatomia Woyzeck
Texto: a partir dos fragmentos Woyzeck de Georg Büchner. Dramaturgia: Cia Razões Inversas. Direção, cenografia, figurinos e iluminação: Marcio Aurelio. Assistente de direção: Lígia Pereira. Elenco: Clóvis Gonçalves, Paulo Marcello e Washington Luiz. Trilha sonora: Cia Razões Inversas. Fotografia: João Caldas. Direção de produção: Paulo Marcello. Realização: Razões Inversas Marketing Cultural.
Serviço:
Centro Cultural São Paulo, sala Jardel Filho (321 lugares), Rua Vergueiro 1000, Tel.: 11 3397 4002. Horários: sextas e sábados, às 21h e domingos, às 20h. Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00. Duração: 60 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 30 de junho.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.