Artigo: Montagem de Sergio Ferrara disseca universo de Jean Genet

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

"Genet: o poeta ladrão"
“Genet: o poeta ladrão”

Com dramaturgia de Zen Salles, Genet: o poeta ladrão retrata a juventude do escritor francês, que produziu na prisão parte de sua obra. Dez atores vivem os personagens marginais do autor: ladrões, gays, travestis e gigolôs

SÃO PAULO – Um teatro tradicional não poderia reproduzir fielmente o universo nebuloso e marginal da obra do escritor, poeta e dramaturgo francês Jean Genet. O local escolhido para a montagem de Genet o poeta ladrão, peça de Zen Salles que acaba de estrear na cidade, é ideal: o alternativo Espaço Beta, do SESC Consolação, que está devidamente adaptado para retratar o submundo da obra de Genet.

Logo ao entrar, o público é convidado a se sentar em duas arquibancadas, que ficam em paralelo à pequena sala retangular. Desta forma, a plateia assiste a tudo de camarote, como se estivesse de frente a uma rua, onde ladrões, gays, prostitutas, gigolôs, travestis ganham a vida.

A convite do diretor Sergio Ferrara, Zen Salles escreveu o texto tendo como fonte de pesquisa a autobiografia de Genet, Diário de um ladrão, e Genet: uma biografia, de Edmund White, além de personagens e situações das peças e livros do dramaturgo, como Nossa Senhora das Flores, O Balcão, As Criadas.

Não sou totalmente fiel à história de vida dele. Nem ele mesmo o foi, como costumava dizer. O Genet que me interessa é o que habita as sombras, o Genet que ama os que erram, o Genet que tem tesão pelo crime, o Genet que é poeta e, como tal, sabe esgotar o mundo com a sua poesia viva”, explica Zen Salles.

Dentro desta proposta de licença poética, a peça começa exatamente em 1969, quando Genet veio ao Brasil para a estreia de O Balcão, montagem revolucionária de Ruth Escobar e dirigida pelo argentino Victor Garcia. Ao saber que vivíamos numa ditadura e que muitos artistas eram presos, Genet se identifica com a situação e relembra sua juventude vivida nos anos 1940 em Paris, onde foi preso inúmeras vezes.

De forma fragmentada e sem cronologia, as cenas mesclam desde momentos da realidade, com Genet se prostituindo como garoto de programa, até seu confinamento nas prisões, onde começa a escrever sobre mundo das ruas, e seus delírios.

"Genet: O Poeta Ladrão"
“Genet: O Poeta Ladrão”

Em entrevista exclusiva a Michel Fernandes, do site Aplauso Brasil, o diretor explica a concepção da montagem:

“Trabalhei com os atores a possibilidade de revelarmos em cena, por meio do texto e de imagens, a união entre o sagrado e o profano, elementos recorrentes na literatura de Genet. Com uma linguagem fragmentada constituída de cenas curtas e objetivas, trabalhamos estados alterados de consciência da personagem central (Genet) que, em delírio e devaneio, vê e imagina o mundo de acordo com sua loucura, na solitária de um presídio”, diz Sergio Ferrara.

A montagem é vigorosa, eletrizante e prende a atenção do espectador desde a entrada. O elenco é coeso e os atores, além de lindos, estão entregues de forma visceral ao universo de Genet; difícil ressaltar a interpretação de um em detrimento dos demais, mas Ricardo Gelli como Genet e Nicolas Trevijano vivendo Divina, têm performances arrebatadoras — a cena em que ambos se veem pela primeira vez na Taberna é emblemática, com o tempo paralisado para o encontro de duas almas gêmeas.

Sergio Ferrara confessou ao Aplauso Brasil que desde 1980 pensa em montar Jean Genet e que com este trabalho iria “viver um raro momento da minha vida de diretor”. Tenha certeza, Ferrara, Genet o poeta ladrão é sem dúvida uma das grandes montagens do ano e um marco em sua carreira profissional.

Roteiro:
Genet: o poeta ladrão
. Texto: Zen Salles. Direção: Sergio Ferrara. Elenco: Ricardo Gelli, Fransérgio Araújo, Nicolas Trevijano, Rogério Britto, Felipe Palhares, Ralph Maizza, Gabriele Lopez, Jhe Oliveira, Magno Argolo, Bruno Bianchi. Figurino: Iraci de Almeida. Cenário e sonoplastia: Sergio Ferrara. Iluminação: Rodrigo Alves. Fotografia: Vivian Fernandez. Direção de produção: Elder Fraga. Realização: Fraga e Ferrara Produções.

Serviço:
SESC Consolação, Espaço Beta (50 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, tel: 3234-3000. Horários: quintas e sextas, às 20h. Ingressos: R$ 10,00 (inteira); R$ 5,00 (usuário SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública); R$ 2,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes). Duração: 80 minutos. Classificação: 18 anos. Temporada: até 06 de dezembro.

 


Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*