ARTIGO: O TEATRO FICA MAIS VAZIO SEM VOCÊ

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

nydiapabtSÃO PAULO – Tive duas graças na vida: de ser acolhido por duas soberanas atrizes que me embalaram como se eu fosse seu filho artístico. Célia Helena e Nydia Lícia são figuras basilares na minha vida e na minha carreira. Ambas se misturam na fórmula que me faz amar o teatro. E hoje me curvo diante da majestosa Nydia Lícia que se junta com Sérgio Cardoso, Célia Helena, Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Marília Pêra, Raul Cortez, e tantos outros tantos, nos palcos da eternidade, ficando o Teatro daqui mais vazio sem você.

Nesses 89 anos em que esteve encantando quem a conheceu, a adolescente italiana que chegou, aos 13 anos, no Brasil deixando uma Itália cada vez mais antissemita – uma vez, durante a aula, ela explicou o motivo de seu nome Nydia com y: como mudavam os nomes de judeus (ela era de família judia) seu pai grafou seu nome assim para que não alterassem a pronúncia do mesmo -, trouxe ao teatro brasileiro, sobretudo difundindo a seus alunos, a chama da paixão, seriedade e disciplina.

A seriedade com que ela tratava o teatro se expressava na disciplina que era exigida dos alunos: primeiro os exercícios de respiração para fortalecer nossa caixa torácica e expandir nosso domínio do músculo abdominal; depois a seleção de textos a ser memorizados a ra o interpretarmos: lembro de “As armas e os barões assinalados que da ocidental praia lusitana” (sim, tudo deveria ser dito num só fôlego!), de Os Lusíadas, “Eros invicto na batalha, Eros que a tua presa escravizas”, fala do coro em Antigona, solilóquios de Hamlet, na tradução de Brutus Pedreira, que assinou a versão que interpretou a rainha Gertrudes, mãe de Hamlet, papel consagrador de Sérgio Cardoso – lembro aqui que, quando subi ao palco com meus óculos para interpretar um monólogo do Hamlet, Nydia pediu que eu retirasse o mesmo, argumentei que não enxergava e Nydia disparou: “O Sérgio tinha 12 graus de miopia e fazia a peça inteira  sem óculos!” Foi a deixa para eu entender que o amor pelo que se faz é potência para superação! Isso se mostra em quem sou: amo o teatro e tinha todos os mopara desistir, mas amar é superação e prossigo. Devo isso a você Nydia.

A atriz, diretora, professora de teatro e uma das fundadoras do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), Nydia Lícia, recebeu homenagem no II Prêmio Aplauso Brasil de Teatro.

O velório será neste domingo (13), das 8h às 12h, no Teatro Sérgio Cardoso (r. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, região central de São Paulo). O enterro acontece às 14h, no Cemitério Israelita do Butantã (av. Eng. Heitor Antonio Eiras Garcia, 5.530, região oeste).

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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