Artigo: Peça fala da falta de comunicação entre as pessoas

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

OPUS 12 PARA VOZES HUMANAS
OPUS 12 PARA VOZES HUMANAS

Com direção de José Roberto Jardim, Opus 12 Para Vozes Humanas reúne duas peças curtas de Sérgio Roveri, Um Dia e Uma Noite, em que os personagens vivem situações cotidianas de incomunicabilidades e desencontros

SÃO PAULO – O espaço intimista de apenas 45 lugares do Club Noir se adapta muito bem à proposta cênica minimalista de Opus 12 Para Vozes Humanas , em cartaz às 21h de quartas e quintas, espetáculo dirigido por José Roberto Jardim que reúne duas peças de Sérgio Roveri.

OPUS 12 PARA VOZES HUMANAS
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Na primeira, Um Dia, os atores Janaína Afhonso e Pedro Henrique Moutinho entram em cena e se sentam um de frente para o outro. Imóveis, eles relatam situações contidianas vividas por um homem e uma mulher numa metrópole contemporânea, em que imperam a impessoalidade, o caos e o total desencontro.

Sempre com a iluminação indireta e tênue, os dois atores saem e tem início a segunda peça, Uma Noite, em que dois casais se encontram para um jantar, num sábado à noite. Felipe Folgosi e Anna Cecília Junqueira vivem os anfitriões e Alex Gruli e Munir Kanaan, os amigos; ao invés de momentos de comunhão e congraçamento, o que se vê são falas e intenções desencontradas, indiferenças e discursos ególatras.

Infelizmente o vizinho do Club Noir, uma boate, não contribuiu para tom do espetáculo, recheado de silêncios, vazios e falas desconexas, sem a troca tradicional de ideias de um diálogo. O som estridente (mas abafado) vindo do vizinho quebrou o clima da peça. Mas não foi o bastante para quebrar a concentração dos atores.

Na primeira peça, o que chama muito a

OPUS 12 PARA VOZES HUMANAS
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atenção é a pluralidade de vozes que os dois personagens transmitem nas circuntâncias vividas: sair de casa, pegar o elevador, andar de carro no trâsito caótico da cidade e vivenciar uma cena de violência urbana. Sentados, quase na penumbra e só com modulação de voz, os atores vivem uma gama de personagens e situações.

Já em Uma Noite, o destaque é para a desconstrução da relação entre as pessoas. Por mais que cada um daqueles personagens tenha seus problemas, crises, dúvidas, limitações e questionamentos, na reunião que deveria ser de troca e entrosamento, o que sobressai é o supérfluo (que tipo de uva é a mais adequada para determinado vinho) e principalmente o discurso enaltecendo o ego. As sutilezas da relação íntima e o vínculo afetivo são totalmente desprezados naquela reunião entre amigos. Será que são mesmo amigos?

Além de um texto precioso de Roveri, que atinge fundo o espectador, como uma agulha fina, Opus 12 Para Vozes Humanas se destaca pela direção sensível de Jardim (responsável também pela iluminação muito condizente com o tom do espetáculo) e uma interpretação marcante dos atores.

Particularmente fiquei impressionado com a performance de Alex Gruli: o conheci na comédia rasgada de Mario Viana, Vamos?, em que ele  provocava risos desde que entrava em cena, e desta vez vive a introspecitiva e problemática mulher do casal que visita os amigos. Composição comovente, revelando seu potencial multifacetado de ator.
Imperdível para aquele que busca um texto reflexivo e provocador.

Roteiro:

 

Opus 12 Para Vozes Humanas. Texto: Sérgio Roveri. Direção e iluminação: José Roberto Jardim. Elenco: Alex Gruli, Anna Cecília Junqueira, Felipe Folgosi, Janaína Afhonso, Munir Kanaan e Pedro Henrique Moutinho. Figurino: Caio da Rocha. Trilha sonora: Fábio Ock. Fotografia: Marcelo Hein. Produção: Regina Ricca.

Serviço:
Club Noir. Rua Augusta (45 lugares), 331, centro, tel. 3257-8129

Horários: quartas e quintas, às 21h. Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia). Duração: 50 minutos. Classificação: 14 anos. Acesso para deficientes.

Temporada: até 1º de maio.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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