Artigo: Regina Braga em Desarticulações retrata o drama da perda de memória

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Regina Braga na peça "Desarticula›ções"
Regina Braga na peça “Desarticula›ções”

Monólogo sobre a obra de Sylvia Molloy relata os encontros diários da autora com sua amiga Maria Luísa, que está perdendo a memória, desarticulando-se do mundo. Direção de Isabel Teixeira, no MIS até 25/08

SÃO PAULO – Impossível não colocar lado a lado o monólogo Desarticulações — que a atriz Regina Braga acaba de estrear no MIS — com outro grande sucesso de sua carreira, Um Porto para Elizabeth Bishop. Em ambos os trabalhos Regina está só em cena e mostra a relação afetuosa entre duas amigas. Se na primeira peça, de Marta Góes, a poeta Elizabeth Bishop contava de sua relação amorosa com a arquiteta brasileira Lota Macedo Soares, desta vez o monólogo versa sobre o diário da escritora argentina Sylvia Molloy em que ela conta sobre sua experiência de visitar a amiga Maria Luísa, que está progressivamente perdendo a memória e a ligação com o mundo real.

“Tenho que escrever estes textos enquanto ela está viva para tentar entender este estar/não estar de uma pessoa que se desarticula diante de meus olhos. Eu tenho que fazer assim para seguir adiante, para fazer durar uma relação que continua apesar da ruína, que subiste embora mal restem palavras”.

É com este depoimento da escritora que Regina Braga inicia o espetáculo. No entanto, o público já está envolto no clima desde que entra na sala do MIS, em que o artista plástico e diretor de arte da peça, Marcos Pedroso, criou uma instalação (aberta ao público diariamente independente da encenação).

A atriz, deitada no chão entre exercícios e incorporação da personagem, vai aos poucos se levantando e começa o relato, que é uma adaptação do diário de Sylvia Molloy realizado em parceria entre Regina e a diretora Isabel Teixeira.

Regina Braga na peça "Desarticula›ções"
Regina Braga na peça “Desarticula›ções”

Nestes escritos, a argentina que vive nos EUA há mais de 40 anos conta suas emoções ao constatar a evolução da doença da amiga, uma intelectual brilhante que aos poucos vai se desligando da realidade.

“Fiquei emocionada com as reflexões sobre o amor e a delicadeza das lembranças que uniam aquelas duas mulheres. Achei que daria uma encenação maravilhosa”, explica Isabel Teixeira.

Regina fica no centro da sala, com a plateia ao seu redor e as duas mulheres retratadas — Sylvia e Maria Luísa— se intercalam, assim como as recordações e vivências delas, que vão e vêm.

Mais do que a perda de memória, Desarticulações nos remete à perda de alguém muito especial. Num momento em que cada vez mais nos deparamos com pessoas portadoras de demência e/ou mal de Alzheimer, este espetáculo joga um foco de luz para o que ainda é possível reter nas relações amorosas, entre aquele que ainda se recorda e a outra que quase não se lembra mais da realidade.

Fiquei emocionado em diversos momentos, pois a trama me remetia às minhas próprias lembranças, minhas perdas e os caquinhos de vida que preciso constantemente colar para poder sobreviver!

Emoção que a atriz sabe dosar na medida certa. Desarticulações com certeza é um novo marco em sua carreira! A exposição de Marcos Pedroso pode ser vista de terça a domingo, das 12h às 19h; já a peça fica em cartaz no MIS até o final de agosto. Não perca mais este sensível e arrebatador trabalho de Regina Braga.

Roteiro:
Desarticulações
. Texto: Sylvia Molloy. Adaptação: Regina Braga e Isabel Teixeira. Elenco: Regina Braga. Direção: Isabel Teixeira. Direção de arte: Marcos Pedroso. Visagismo: Anna Van Steen. Fotografia: Robeto Setton. Produção executiva: Roberta Koyama. Direção de produção: Henrique Mariano.
Serviço:
MIS – Museu da Imagem e do Som (80 lugares), Av. Europa, 158, tel: (11) 2117-4777. Horários: de quarta a sábado às 21h30 e domingo às 20 horas. Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia-entrada). Bilheteria: de segunda a sexta das 12 às 21 h e sábado, domingo e feriado das 11 às 20 h. Vendas: site www.ingressorapido.com.br. Aceita dinheiro e cartões. Duração: 75 minutos. Classificação: livre. Temporada: Até 25 de agosto.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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