Artigo: saiba como foi assistir “Terra Medeia”, peça feita 100% ao vivo e online de 3 países e 5 locações

“Terra Medeia” é teatro remoto e ao vivo que acontece simultaneamente em 3 países e 5 locações.

SÃO PAULO – Recebi um convite impossível de recusar: assistir ao vivo o espetáculo Terra Medeia, uma releitura moderna assinada pela Sueca Sara Stridsberg, da tragédia clássica escrita por Eurípedes há quase 2500 anos. Era um domingo típico de outono. Fui a um estúdio – que na verdade é o espaço do fotógrafo João Caldas, que com seus valiosos 40 anos de fotografia para o teatro, assina a direção de arte, fotografias e Filmagens da peça.

Ali cheguei no bairro de Perdizes, em São Paulo olhei os equipamentos para transmissão ao vivo, dei um oi para o elenco que se divide entre Brasil (André Guerreiro Lopes, Daniel Ortega e Nicole Cordery), Paris (Rita Grillo) e Suécia (Bim de Verdier). Fui apresentada a cada elemento da cena com entusiasmo. No estúdio a equipe técnica se divide para operar um softer, gravar Nicole e Renato (presentes no estúdio) e até para fazer contrarregragem e ajeitar as cenas. Pouco antes da peça começar, aquecimento, uma olhada na plateia virtual e silêncio para ouvir o sinal!

Foto: Kyra Piscitelli.

Há um ano e tanto a arte teve que se reinventar e se ressignificar. Como todos os momentos que impõe a mudança, muitos ainda criticam e se adaptam. O fato é que sem o ao vivo possível, o online foi a forma de fazer acontecer. No teatro, os nomes começaram a pipocar: teleteatro, experiência cênica, cineteatro, teatro pandêmico, teatro virtual… são alguns desses nomes dados, que tentaram colocar numa “caixa acadêmica” certeira essa nova e inevitável forma de arte.,  Mas, o certeiro em tempos de mudança é tolice. Vivemos isso como espectadores e é como tal que temos que narrar as experiências. As terminologias deixamos para o futuro, quando haverá distanciamento histórico.

A banheira no cenário de “Terra Medeia”. Foto: Kyra Piscitelli

Fato é que sobre Terra Medeia, eu li pelo menos dois textos falando como a peça mescla gravado com ao vivo. Ri. Porque nossa responsabilidade como críticos teatrais ( espécie humana na qual me incluo) é trazer reflexões, muito além de informações, ainda mais sobre aquilo que não vemos ou não sabemos. Podemos tratar de sensações ao assistir, mas é menos sobre nós e mais sobre o que aquilo pode causar e para quem. A função da obra; seja para o riso ou para a tragédia.

E como estive lá, posso dizer: não há nada gravado. É tudo 100% ao vivo. E os conservadores que lutem com suas convicções. Nicole e Renato não ficam no mesmo espaço. Tempos de distanciamento social, né? E eu fiquei no espaço em que Nicole e a equipe técnica estava.

Marcela Horta, com a montagem de cenas ao vivo, Leo Correia de Verdier, na composição da trilha, e Andréia Machado e João nas câmeras dão um show realmente. É difícil acreditar que aquilo é feito ao vivo, une três países, cinco locações e faz acontecer ao vivo.

Mas é real. Eu teria uma porção de definições sobre teatro para recorrer. Mas de todas elas, o que me encanta no teatro é a arte do ao vivo. O risco ao erro e, principalmente, a ideia de nenhuma apresentação é igual a outra. Esses aspectos: Terra  Medeia cumpre com maestria e consegue unir o melhor dos tempos virtuais, porque corta as barreiras de distância do mundo, faz ao vivo, junta elenco e equipe em um compromisso para cada sessão e realiza teatro.

Terra  Medeia é o clássico unido ao atual na essência. A tragédia clássica dá lugar para contar a história de uma Medeia que se vê sozinha em uma terra estrangeira, onde não pode mais permanecer depois de ser trocada pela princesa daquele lugar. Filhos, empatia, família, refugiados e amor. A revisitação de Medeia a traz para os nossos tempos, com as nossas angústias de depressão, cede por justiça e sobrevivência.

Assisti Terra de Medeia por três vezes. Uma do computador de casa, uma de forma recortada ao vivo e, depois, vi essa mesma sessão, inteira de casa. Foi uma das experiências mais incríveis que a pandemia me deu. Como um ballet com passos arriscados, a peça foi construída sessão a sessão. É uma logística que imperou a todos entender os cenários possíveis, a construção das cenas e o uso da tecnologia no seu melhor. Coisa de maluco – que é artista.

Ver a Nicole ajeitando a banheira em que Medeia se deita suja e passando mal foi um deleite. O vômito feito de aveia, a cor dada por corante, o se secar rápido após a banheira para já voltar a cena. Ah, o teatro!

Medeia tenta fugir do seu destino, mas alguém tem que ser Medeia, como diz a Bim sobre a peça. O teatro também não pode fugir do seu destino de ser teatro. E Terra Medeia, que espero ver de volta no palco online, consegue cumprir o seu destino de se fazer teatro e um trabalho de equipe completo e intenso.

Eu, Kyra Piscitelli, como espectadora de “Terra Medeia”. Foto: Marcela Horta.

Ficha técnica 

Texto: Sara Stridsberg

Tradução: Bim de Verdier e Nestor Correia

Direção: Bim de Verdier

Elenco:

André Guerreiro Lopes…………….Jasão

Bim de Verdier………………………..Mãe e Deusa

Daniel Ortega………………………….Médico

Nicole Cordery………………………..Medeia

Renato Caldas………………………….Creonte

Rita Grillo……………………………….Babá

Direção de Arte, Fotografias e Filmagens: João Caldas

Equipe de Captação de imagens, edições e Transmissão: Marcela Horta, João Caldas e Andréia Machado

Operação de Vídeos ao Vivo: Marcela Horta

Contrarregra: Madu Arakaki

Composição Original de Trilha sonora: Leo Correia de Verdier

Direção de produção: Selene Marinho

Produção executiva: Marcela Horta

Designer Gráfico: Leonardo Miranda

Assessoria de Imprensa: Pombo Correio

Produção: SM Arte Cultura / Cordery e Viana Produções Artísticas

Consultoria de Figurino: Julia Correia de Verdier

Execução vestidos Medeia: Flávio Mothé

Participação especial (Voz da Princesa): Anna Zepa

Consultoria em Áudio: Alexandre Martins

Para acompanhar a peça siga o instagram: @terramedeia

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!