As Cegas: misto de dança e teatro discute a mortalidade

Maurício Mellone* (aplauso@gmail.com)

"As Cegas" em cartaz no Viga Espaço Cênico, quartas e quintas

Com texto e direção de Cláudia Maria de Vasconcellos, o espetáculo faz uma sátira ao mundo tecnológico de hoje e como o homem ainda não sabe lidar com a morte. No elenco, Gil Grossi, Neca Zarvos e Vera Bonilha

A morte rondando tanto uma cega como uma psiquiatra, que vive plugada em todos os aparelhos da mais alta tecnologia dos tempos atuais. Esse o mote do espetáculo que se apresenta no Viga Espaço Cênico, As Cegas, texto e direção de Cláudia Maria de Vasconcellos.

O enredo foi criado a partir de estudo e pesquisa do grupo, além de entrevistas com filósofos e psiquiatras sobre a mortalidade. O resultado é um espetáculo com poucas palavras, que são substituídas por gestos, dança e pantomima.

Como em CataDores (em cartaz no Teatro Eva Herz), Cláudia retoma o tema da morte e a incapacidade do homem de lidar com ela. Se naquele texto eram dois palhaços que questionavam o cotidiano rotineiro, a repetição de atos e sentimentos (viver é estar à espera da morte?), em As Cegas a autora personifica a morte. Ela está presente no palco por uma caveira bem posicionada e, principalmente, pela intervenção direta dela (vivida por Gil Grossi), que ronda a vida da psiquiatra viciada em tecnologia (Vera Bonilha) e da ceguinha, brilhantemente interpretada por Neca Zarvos.

Paralelamente, a cega e a psiquiatra reproduzem a rotina da vida: acordam, vão trabalhar, voltam para casa e novamente outro dia recomeça com as mesmas atividades. Aos poucos o público vai se envolvendo nas circunstâncias criadas por elas e o inusitado, o jocoso e o patético sobressaem.

São hilárias as cenas em que a ceguinha se atrapalha para atravessar a rua, tem devaneios com a excessiva dosagem de anti-depressivos e luta para se livrar da sombra da morte. Já a psiquiatra no início passa um ar de modernidade, ponderação e profissionalismo; no entanto, no decorrer da trama, ela vai ficando ‘cega’ com tanta tecnologia e modernidade. A sátira aqui é fina e certeira. Seus discursos sobre a morte, gravados para um livro, ficam na teoria, na prática ela é tão despreparada como cada um de nós.

Os cenários e objetos de cena, de Tadeu Knudsen, são mínimos, porém decisivos, para a desenvoltura dos atores — a coreografia (de Letícia Sekito) é muito bem definida, enquanto a psiquiatra anda de forma retilínea pelo palco, a ceguinha perambula pelo centro, tateando o espaço para se localizar. A morte é que fica solta para alcançar seu objetivo, levá-las embora. Destaque ainda para a trilha e efeitos sonoros compostos originalmente por Natalia Mallo.

Roteiro:
As Cegas
.Texto e direção: Cláudia Maria de Vasconcellos. Elenco: Gil Grossi, Neca Zarvos, Vera Bonilha. Assistente de direção e produção executiva: Berenice Haddad. Cenografia e objetos: Tadeu Knudsen. Figurino: Patrícia Suplicy. Iluminação: Ari Nagô.Trilha original: Natalia Mallo. Efeitos sonoros: Teatro do Tempo e Natalia Mallo. Efeitos especiais: Christian Scherf (Fixxon). Fotografia: Luciana Bortoletto. Realização: Teatro do Tempo

Serviço:
Viga Espaço Cênico (74 lugares), Rua Capote Valente, 1323, tel. 3801.1843. Quartas e Quintas, às 21h. Ingressos: R$ 30. Bilheteria: abre uma hora antes do início do espetáculo. Pagamento em dinheiro ou cheque. Não aceita cartão. Duração: 70 minutos. Recomendação: 12 anos. Temporada: até 17 de novembro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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