As Troianas – Vozes da Guerra inaugura Teatro do Núcleo Experimental

Luís Francisco Wasilewski, especial para o Aplauso Brasil (lfw@aplausobrasil.com)

Ines Aranha em adaptação de "as Troianas" - Foto de Lenise Pinheiro

SÃO PAULO – Abrindo o novo teatro da cidade, instalado na rua Barra Funda, a peça As Troianas – Vozes da Guerra integra a Trilogia da Guerra, composta também por Casa Cabul e Bichado, outras montagens que também ocuparão o espaço teatral do grupo.

Para traçar o paralelo entre a Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) e a Guerra de Troia (1.250 a.C), o encenador Zé Henrique de Paula precisava ter a “vivência” ou, como se diz no teatro, fazer seu laboratório perto de onde aconteceram os horrores da guerra na época do Nazismo. Há pouco mais de dois anos, visitou Auschwitz e Birkenau, na Polônia, dois dos principais e mais mortíferos campos de concentração e extermínio do Terceiro Reich e conheceu as ruínas da cidade de Tróia (perto de Istambul). Assim montou AS TROIANAS, que faz curtíssima temporada em março, inaugurando a sede do grupo, o Teatro do Núcleo Experimental, na rua Barra Funda, dia 8 de março (para convidados) e dia 9 de março (para público) para 13 sessões.

“A viagem foi fundamental ao grupo, uma vez que a peça é quase documental no retrato que faz da chegada de um lote de prisioneiras ao campo”, lembra Zé Henrique. A peça volta depois de estrear no Sesc Paulista e cumprir temporadas no Instituto Cultural Capobianco, na Funarte e no Teatro Sergio Cardoso.

Fábio Redkowicz em adaptação de "as Troianas" - Foto de Lenise Pinheiro

Livre adaptação do texto de Eurípides, As Troianas – Vozes da Guerra resgata a história das sobreviventes do conflito de Troia para levantar alguns questionamentos inerentes a qualquer guerra: o que se passa dentro de um campo de concentração? Como é ter a privação quase que completa de seus direitos? Como são tratadas essas pessoas? Existe esperança numa situação como essa?

Ao término da Guerra – travada entre Troia e Esparta devido ao amor de seus governantes pela mesma mulher –, Troia, a cidade perdedora, foi aniquilada e todos os homens, mortos. As mulheres sobreviventes foram aprisionadas e escravizadas pelo inimigo. A partir do relato dessas personagens, Eurípides conseguiu mostrar uma visão feminina sobre a guerra: Hécuba, rainha de Troia, é a protetora de todas, a mais velha. A profetisa Cassandra, sua filha, tem delírios sobre os rumos da batalha. Andrômaca esconde seu filho, Astíanax, para que ele não seja morto pelos soldados. Helena, causadora do conflito, disfarça-se de troiana para não ser descoberta por Menelau, seu marido, rei de Esparta. Apesar de terem histórias diferentes, elas estão juntas pelo mesmo motivo: a sobrevivência.

“Enquanto aprofundávamos a pesquisa, descobrimos diversos paralelos entre gregos e alemães, troianos e judeus”, explica Zé Henrique, o diretor da montagem. Essas aproximações acabaram definindo a ambientação da peça e a proposta como um todo, ou seja, fazer com que o texto se passe em um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial. “É um modo de universalizar a história, que não se restringe a gregos ou alemães”, afirma o diretor.

Mesmo escrita há mais de 2500 anos, o enredo mantém sua atualidade, já que os sofrimentos da guerra sempre foram os mesmos. Revisitar a obra de Eurípides é dar uma vez mais a palavra às vítimas de guerra e propor um novo olhar aos campos de refugiados. Para Zé Henrique, “o local é Troia, mas poderia ser a Alemanha nazista, a Europa dos guetos e dos campos de concentração, das casas deixadas às pressas, das famílias desfeitas pela fúria do preconceito e da intolerância”.

Livre adaptação do texto de Eurípides, a peça apresenta uma proposta singular na encenação: “Nossa meta foi a de ir secando o texto até que ele não existisse mais. Nenhuma das mulheres da peça fala, a não ser Helena de Troia. Todo o sentido do texto foi gradativamente sendo substituído por ações físicas e canções de diferentes regiões do globo: Croácia, Rússia, Japão, Grécia, Irlanda, França, Israel etc. Todos povos que estão ou já estiveram em situação de guerra ou refugiados”, explica Zé Henrique.

Como resultado desse trabalho, as personagens femininas não falam, somente cantam. Já os homens, esses sim falam, mas em alemão. “As mulheres estão em estado de submissão, por isso também não têm voz. No texto de Eurípides, são as troianas, cujos maridos foram massacrados pelo exército grego. O autor fala, assim, sobre a violência e arbitrariedade da guerra e o vazio deixado por ela”, explica o diretor. Falar em alemão foi um modo de tornar essas diferenças explícitas, mas sem situar o texto como elemento essencial de compreensão.

O processo de pesquisa se iniciou em 2008. Durante oito meses, o grupo preparou as cenas com o texto, para compreender seu funcionamento no espaço e no corpo dos atores. “Depois, secamos o texto até que ele sumisse e só restassem as ações. São elas e a relação entre as personagens que definem o que está acontecendo, substituindo e sintetizando as falas”, afirma Zé Henrique. Para os homens, que falam em alemão, um treinamento especial na língua foi preparado, para garantir fluência e intimidade com o texto.

“Existe um único momento de ‘fala’. A peça tem um prólogo, uma conversa entre Atena e Posseidon para decidir o destino dos gregos e troianos”, confidencia o diretor. A cena – com os atores convidados Patricia Pichamone e Sergio Mastropasqua – é apresentada ao público em uma projeção, como um filme de época, também em alemão, mas com legendas em português. “O filme foi idealizado como uma projeção de treinamento realizada para os alemães dentro do campo”, afirma.

Para roteiro

AS TROIANAS – Vozes da Guerra – 3 semanas (estreia na quinta (8) para convidados, temporada de sexta a segunda). Texto – livremente adaptado de As Troianas, Eurípides. Direção – Zé Henrique de Paula. Direção musical e preparação vocal – Fernanda Maia. Assistência de direção – Caroline Fioratti. Elenco – Inês Aranha, Norma Gabriel, Patricia Pichamone, Cy Teixeira, João Pedro de Almeida Teixeira, Alexandre Meirelles, Fábio Redkowicz, Léo Bertero, André Dallan, Bibi Piragibe, Claudia Miranda, Gabriela Germano, Luciana Ramanzini, Marcella Piccin, Patrícia Vieira. Cenografia e figurinos – Zé Henrique de Paula. Iluminação – Fran Barros – Produção – Firma de Teatro (Sergio Mastropasqua e Claudia Miranda). Making of: Direção – Caroline Fioratti – Montagem – Leo Bertero. Duração – 75 minutos. Capacidade – 50 lugares. Temporada – sextas, sábados e segundas às 21 horas e domingos às 19h. Recomendado para maiores de 16 anos. Grátis. No Teatro do Núcleo Experimental, na Rua Barra Funda, 637. Telefone: 11 3259-0898.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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