Bob Wilson e Patrice Chéreau apresentam formas teatrais paralelas que se bifurcam na diversidade contemporânea

Isabelle Huppert é a Marquesa de Merteuill em <i>Quartett</i>
Isabelle Huppert é a Marquesa de Merteuill em Quartett

Crítica de Michel Fernandes, especial para o Último Segundo(michel@aplausobrasil.com)

 

SÃO PAULO – Interessante pensar a forma do teatro apresentado por Bob Wilson – Quartett – e Patrice Chéreau – Le Grand Inquisiteur e La Doueleur –, atrações teatrais bastante aguardadas no Ano da França no Brasil, cujo patrono oficial é Danilo dos Santos Miranda, diretor regional do SESC São Paulo, instituição cujo mérito tem o aval de excelência de toda nossa classe artística.

 

Os trabalhos apresentados sob a regência dos dois diretores representam dois pólos opostos das artes cênicas, duas paralela que e bifurcam e, fundidas, simbolizam a diversidade que o palco comporta na forma de fazer arte.

 

O diretor francês Patrice Chéreau
O diretor francês Patrice Chéreau

Em Le Grand Inquisiteur e La Doueleur, ambos dirigidos por Patrice Chéreau, há um chamamento à intimidade. A base sólida é o texto verbalizado. Não consigo enxergar subserviência às palavras e às emoções por elas suscitadas, como os mais afeitos ao teatro que priorize o gestual. Prefiro a ambos, desde que bem executados, o que é o caso. Já comentei (CLIQUE aqui para ler) sobre o impacto causado por Le Grand Inquisiteur que aguçou as expectativas ao monólogo interpretado pela atriz Dominique Blanc.

 

E La Doueleur cumpriu com absoluta pontuação o que se esperava. Há um profundo entendimento do que se diz nas peças dirigidas por Patrice Chéreau, uma forma de diálogo com o texto, com distinção nos focos sobre o que e a quem se fala, que, mesmo que haja apenas um intérprete em cena, os espaços são preenchidos. Espaços que conduzem para uma atmosfera interior, a uma delicada intimidade e cumplicidade. 

 

Já o foco do norte-americano Robert Wilson, diretor do Quartett, do Odéon-Théâtre de l’Europe de Paris, é mais amplo. Seus espetáculos exigem maior espaço físico e amplitude da participação de nossos sentidos. Os diversos elementos que compõem sua elaborada encenação – iluminação, cenários, objetos de cena, figurinos, maquilagem e uma interpretação estilizada – têm o mesmo peso. Tudo é signo. Nem todos de simples acesso intelectual, mas a beleza das imagens afeta nosso inconsciente e nos absorve nesse sonho.

 

Escrito pelo alemão Heiner Müller, figura emblemática da dramaturgia que Hans-Thies Lehmann denomina como pós dramática, Quartett tem inspirações nos personagens de As Ligações Perigosas (Les Liaisons Dangereuses), de C. de Laclos, de quem Müller confessa não ter lido a obra toda, coloca o diálogo entre duas figuras da nobreza decadente – que pode ser lida, aqui, como a alta-sociedade burguesa -, a Marquesa de Merteuill (a exuberante Isabelle Huppert) e o Conde de Valmont (Ariel Garcia Valdès), num jogo de forças entre os sexos e a capacidade de dissimular para conquistar seus objetivos, num tratamento despojado de ordem dramatúrgica clássica, com monólogos de uma poesia cruel, humor corrosivo e irônico, de livre espaço para que o encenador preencha com seus sentidos as lacunas propositais deixadas pelo texto.

 

O amor, a paixão, o desejo, o instinto, a submissão, ou mesmo a simulação desta, são sentimentos que trafegam a desfigurada máscara daquele que faz de si um personagem e de sua vida um jogo de tensões fictícias estão em cena. Há, também, a luta entre a vida e a morte que, aparentemente, delineia a encenação.

 

E mesmo que as palavras não reinem absolutas aqui – nem por sua ausência, nem pela ineficácia de comunicação – as interpretações são menos complexas. Há que e dominar uma infinidade de técnicas – gestual e vocal, sobretudo – e estabelecer um diálogo eficaz com a tecnologia utilizada. As palavras, aqui, não tem o peso de serem inteligíveis, antes, há um jogo com a sonoridade – e a sonoridade da língua francesa é indiscutivelmente melódica – das frases, palavras marcadas, o ritmo e o humor resultante desse entrelaçamento.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.