Botucatu encanta com resgate ao modo de ser caipira

Michel Fernandes*, do Aplauso Brasil(michel@aplausobrasil.com.br)

COTIA –Fernando Pessoa, na pele de um de seus inúmeros heterônimos, aconselhou: “para falar sobre o mundo escreve sobre tua aldeia… “ e parece que, mesmo sem um contrato firmado com o poeta português, o grupo Anônimos da Arte em Histórias Lá da Serra, atendeu ao conselho. A peça de Botucatu encerrou o primeiro dia de apresentações na Mostra de Teatro do Projeto Ademar Guerra, no Centro Cultural Würth.

Com base em pesquisa de linguagem sobre o teatro épico difundido pelo bardo alemão Bertolt Brecht, os Anônimos da Arte se debruçaram em suas origens para refletir sobre  as vantagens de se viver numa cidade do interior. Para tanto utilizaram a metodologia em que narrativas didáticas eram mote para criação de cenas dramáticas, todas regadas a fino humor, em que temas como saudade, amores não concretizados, “causos”, e relações familiares, entre muitos outros, são representados.

As representações narrativas deixaram evidente o nervosismo  dos interpretes, totalmente compreensível já que os atores são muito jovens e ainda precisam da máscara da personagem para se sentir mais seguros,  nos momentos em que “viviam” as personagens demonstraram grande talento e segurança, alcançando o timbre necessário para vibrar os componentes emotivos de cada um dos espectadores, afinal, todos nós podemos nos identificar com personagens que parecem saídos de nossas famílias.

Cito uma cena memorável no quesito formal do espetáculo, cuja criatividade transborda e merece notação de companhias profissionais inclusive do eixo Rio-São Paulo:  quando ( Teresa mais velha, comenta  seu arrependimento ao não declarar seu amor a João  na saída do baile quando ainda era jovem, criando um flashback dentro da ação presente.

Histórias lá da Serra,  deixa claro a vertente de qualidade da curadoria artística de Sergio Ferrara no Projeto Ademar Guerra, cuja prioridade reside na pesquisa de linguagens cênicas e humanísticas.

*Michel Fernandes viajou a convite do projeto Ademar Guerra.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

4 Comentários
  1. Que bom que conseguimos alcançar nosso objetivo! O Projeto Ademar Guerra foi essencial para o crescimento do grupo “Anônimos da Arte”. Estamos apenas começando. Temos muito trabalho, muita pesquisa e um longo caminho a percorrer… Guardem esse nome: “Anônimos da Arte”! Valeu Michel! Valeu Projeto Ademar Guerra! Obrigada por Tudo!

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