Camille e Rodin marca a re-abertura do Auditório MASP

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Camille e Rodin"

Em peça inédita de Franz Keppler, com direção de Elias Andreato, Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore encarnam os escultores franceses Auguste Rodin e Camille Claudel, que viveram um apaixonado e tumultuado romance no século 20

SÃO PAULO – A escolha da peça não poderia ter sido mais acertada: para re-abertura do Auditório MASP, nada melhor do que um espetáculo sobre a vida e obra de dois dos maiores escultores de todos os tempos, Auguste Rodin e Camille Claudel. Com texto inédito de Franz Keppler e direção de Elias Andreato, Camille e Rodin retrata o encontro do já maduro Rodin, interpretado por Leopoldo Pacheco, com a jovem Camille, vivida por Melissa Vettore.

Eles se conheceram quando Rodin acabara de receber a encomenda para fazer a escultura A Porta do Inferno: Camille que chegara a Paris há pouco procura o mestre a conselho de seu professor. Ambos não imaginariam que aquele encontro fosse modificar radicalmente suas vidas. Segundo o autor Franz Keppler (que dividiu a pesquisa com Melissa Vettore), o encontro entre os dois artistas foi “decisivo e transformador”, tanto que impulsionou o trabalho criativo dos dois e o amor entre eles é transbordado para as obras. Ao se relacionar afetivamente com o mestre, Camille deixa de ser somente discípula para se tornar uma escultora de muito talento. Já Rodin, mesmo casado com sua ex-modelo Rose Beuret e consagrado profissionalmente, fica loucamente apaixonado por Camille e leva para sua arte tudo o que vivia afetivamente. Os críticos chegam a dizer que é difícil distinguir qual obra é a do mestre e qual a da discípula, graças à proximidade tanto física como estética e espiritual entre ambos.

"Camille e Rodin"

A narrativa do espetáculo não se atém à ordem cronológica na vida dos dois artistas: ora as cenas mostram o início do relacionamento entre eles, ora ambos estão mais velhos e contam suas impressões de tudo o que viveram.

“A estrutura narrativa que optei foi a de mostrar Rodin e Camille já velhos e separados, em tempos e espaços diferentes, tecendo suas histórias através da memória, lembranças que se cruzam de modo não linear e que revelam detalhes de suas vidas, de suas obras, de seus embates, ambiguidades e angústias, traçando paralelamente um panorama artístico e social do final do século 19 e início do 20”, diz Keppler.

O diretor também utilizou a iluminação (assinada por Wagner Freire) e o som (música original de Jonatan Harold) para conduzir a história: os atores se locomovem pelo cenário (assinado por Marco Lima) e os tempos de suas vidas se alteram.

Notável a delicadeza com que as cenas românticas entre Camille e Rodin são retratadas: os gestos, abraços e beijos são construídos de maneira lenta, reproduzindo, desta forma, as esculturas que ambos produziram.

Outro destaque de Camille e Rodin é a opção do autor em não tomar partido na história dos biografados: o julgamento sobre a relação afetiva entre Camille e Rodin e seus desdobramentos fica para o público.

Quanto à interpretação, Melissa soube com rigor compor sua Camille com todas as suas facetas, desde a jovem idealista e visionária à escultora criativa e a mulher apaixonada e, ao mesmo tempo, revoltada e derrotista. Já Leopoldo mostra o grande escultor também com perfil multifacetado: do artista pragmático e cônscio de seu papel social ao amante entregue às emoções.

Os dois atores revelam, numa curva ascendente de emoção, todas as entranhas dos personagens, o que deixa o público extasiado.

Roteiro: Camille e Rodin. Texto: Franz Keppler. Direção: Elias Andreato. Elenco: Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore. Assistente de direção: Leandro Goddinho. Pesquisa: Melissa Vettore e Franz Keppler. Iluminação: Wagner Freire. Cenografia: Marco Lima. Trilha sonora: Jonatan Harold. Figurino: Marichilene Artisevskis. Visagismo: Leopoldo Pacheco. Fotografia: Alexandre Catan. Direção de produção: Ed Júlio. Realização: Baobá Produções Artísticas.

Serviço: Grande Auditório do MASP (374 lugares), Av. Paulista, 1578. Informações: 11 3171.3267. Horários: sexta e sábado ás 21h e domingo às 19h30. Ingressos: sexta R$ 20, sábado e domingo R$ 30. Bilheteria: terça e quarta (das 11h às 17h30); quinta (das 11h às 19h30) e de sexta a domingo a partir das 11. Estacionamento Estapar (Av. Paulista, 1776) R$ 15,00. Vendas: 4003.1212 – www.ingressorapido.com.br.  Duração: 75 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até 26 de agosto

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.