Carta para o Michel Fernandes:  a arte da despedida e o espetáculo “O Último Concerto Para Vivaldi”

O Último Concerto Para Vivaldi está em cartaz Teatro Viga, em SP.

SÃO PAULO – Para o público que vai ao teatro, ao cinema ou a uma exposição é difícil dimensionar o quanto tempo aquela montagem demorou para estar em um espaço. No caso do teatro, esse período vai além dos ensaios. Uma peça às vezes descansa anos numa gaveta, em um arquivo da nuvem e amadurece, passa por opções de elenco e outras conjunturas que a fazem acontecer. Tudo isso, é para falar sobre O Último Concerto Para Vivaldi – peça que o crítico Michel Fernandes, criador do Aplauso Brasil quase viu antes da pandemia e antes de falecer.

Michel era sério com compromissos. A sua limitação com a doença degenerativa já estava atingindo altos níveis, então tudo com ele era marcado e deveria ser cumprido. Assim, eram as votações do Prêmio Aplauso Brasil. Ele fazia todos terem o compromisso de ir e assim foi nossa última votação. Nas últimas vezes, nós nos dirigíamos até ele. Saíamos do centro de São Paulo – onde todos os jurados moram – rumo a Santo Amaro (uns 14 km distante). Para estar lá, o Michel abriu mão de ir a uma leitura que tinha sido arduamente solicitado: O Último Concerto Para Vivaldi e isso tinha uma razão.

Michel era crítico de teatro, gay e tinha uma doença degenerativa, que tirou os seus movimentos, diminuía sua coordenação motora, potência da voz e etc. Ele foi um lutador pela causa de cadeirantes LGBTQIA+ e também pela acessibilidade e representatividade no teatro e na dança.  Sempre me dizia que colocar um cadeirante para sentar longe era prejudicial e não pela altura da cadeira e sim porque, no seu caso, tinha uma doença que prejudicava outros sentidos, e estar longe não o fazia aproveitar como devia a experiência, por exemplo.

No espetáculo O Último Concerto Para Vivaldi, com dramaturgia e direção de Dan Rosseto, que está atualmente em cartaz no Teatro Viga, gratuitamente de quinta a sábado, às 20h, um casal gay ( Anton e Ben) têm sua vida abalada pela nova rotina da descoberta de uma doença de Bem – condenado à morte. O casal é assistido por Adilah (Amazyles de Almeida), uma enfermeira muçulmana.

Por isso, a razão do Michel ter sido chamado especialmente para acompanhar a leitura no início de 2020. Nessa história, ele tinha mais identificação do que qualquer um de nós. Mas ninguém poderia imaginar a pandemia e que a morte atingiria o Michel antes da peça vir a cartaz.

Ao assistir a peça, eu me emocionei quando o personagem Ben (Michael Waisman) curva o corpo e entorta a mão de uma forma que só quem viveu algo assim é capaz de se atentar. A postura de Anton (Bruno Perillo) me lembrou a minha e a de pessoas que ficavam próximas do Michel e hora se convertiam em cuidadores.

Por um presente, eu assino o trabalho nas redes sociais da peça, o que me impede de fazer uma crítica, mas não de fazer esse relato necessário. Mais ainda porque por mais que a peça traga a despedida, ela traz o amor e a esperança como principais “lições”. Essas duas palavras poderiam definir o Michel, que superou a sua expectativa de vida em 20 anos graças a arte e brigando por ela. Talvez por coincidência, o Ben da peça é músico.

Estar no teatro me lembrou quando fui com o Michel ver 33 Variações, com a Nathalia Timberg, Wolf Maya e elenco. Acho que era 2016, mas não lembro ao certo. Ali, Nathalia fazia uma pesquisadora de Beethoven que sofria de uma doença degenerativa. Olha a música, a arte e a doença de novo.

Eu me lembro de como o Michel saiu empolgado da peça, pois se sentiu representado. Ver ali foi como vencer uma batalha no seu campo de guerra. Ele dizia que não escreveu uma crítica da peça e sim sobre a sua vivência.

É assim que vejo que ele faria com O Último Concerto Para Vivaldi. Aliás, ele havia comentado comigo sobre o convite do Fabio Camara  (produtor e assessor) e do Dan. Me disse que não poderia ir porque era bravo com quem faltava às reuniões do Aplauso, mas que o tema o interessava e que ele queria palpitar, mas que iria assim que pudesse, falamos de ir juntos. Esse dia não chegou. Mas quem sabe, já que há tanto entre o céu e a Terra além do que pode supor nossa vã Filosofia, ele não estava lá ao meu lado no teatro, me pedindo para limpar os óculos e desligar o celular dele antes do espetáculo começar?

O Teatro é magia, é identificação e amor. Vá ao teatro. Evoé, meu mestre!

FICHA TÉCNICA: 

Texto e direção: Dan Rosseto

Direção de produção: Fabio Camara

Assistente de direção: Larissa Ferrara

Elenco: Amazyles de Almeida, Bruno Perillo e Michel Waisman

Figurinista: Thaís Boneville

Iluminador: César Pivetti

Cenografia: Dan Rosseto, Fabio Camara e Thaís Boneville

Visagista: Louise Hèlene

Cenotécnico: Matheus Fiorentino Nanci

Preparação vocal: Gilberto Chaves

Preparação corporal: Giovanna Marqueli

Operador de luz: Jackson Oliveira

Operador de som: Beto Boing

Costureira: Lili Santa Rosa

Fotos estúdio: Cléber Corrêa

Fotos ensaio: Felix Graça

Arte gráfica: André Kitagawa

Redes Sociais: Kyra Piscitelli

Assessoria de imprensa: Fabio Camara

Produção: Applauzo Produções e Lugibi Produções

 

SERVIÇO:

LOCAL: Viga Espaço Cênico – (Rua Capote Valente, 1323 – Sumaré), 32 lugares.

DATA: 17/06 até 26/06 (Quinta, sexta e sábado 20h)

INGRESSOS: Gratuito.

INFORMAÇÕES: 11 3801 1843 e @oultimoconcerto

DURAÇÃO: 95 minutos

CLASSIFICAÇÃO: 12 anos

Ps: os atores usam máscara em cena, o número de lugares por sessão são 32 apenas e todas as medidas de segurança estão sendo tomadas.

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!