Cartas de um profundo olhar

Ruy Jobim Neto, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

“Procure o fundo das coisas: ali a ironia nunca chega”,

Poesia de Rilke no Viga Espaço Cênico

disse em determinado momento o escritor austro-húngaro Rainer Maria Rilke, em uma de suas cartas ao jovem poeta Franz Kappus, com o conhecimento consciente e doloroso das dúvidas do novato, com quem se correspondia, uma vez que Rilke, nascido em Praga, é considerado pela crítica e pelos fãs como o maior poeta a escrever em língua alemã.

O trecho pertence a Cartas a um Jovem Poeta, um exemplar raro e belo de um teatro epistolar, cujo processo começou em janeiro de 2008, e cuja montagem  chega ao Espaço Viga depois de uma temporada no SESC Avenida Paulista, antes da reforma do prédio.

A montagem é um trunfo triplo: da direção sensível de Claudio Cabral, da produção detalhista de Domingas Person e da arte maior do ator e co-diretor Ivo Müller, que interpreta Rilke no palco. Simplesmente brilhante.

A sensibilidade do público é colocada à flor da pele. Como arte teatral, as cartas formam um mosaico de discussões, pensamentos, lembranças e dores lancinantes da alma que Rilke nos deságua de forma magistral. As cartas foram publicadas pelo próprio correspondente, Franz Kappus, três anos após a morte de Rilke, mas o espetáculo não fica apenas nessa coleção de missivas ao novato.

O ator Ivo Müller em CARTAS A UM JOVEM POETA

Além do próprio Kappus, os pais do escritor e a amante e escritora russa Lou Andreas Salomé (que também foi amante de Freud, Nietzsche e Rodin) estão colocados em cena, bem como cartas a todos eles, pulsando nas idéias de Rilke.

O amor, a criação poética, a solidão, o contato com a natureza e a necessidade gritante de auto-conhecimento fazem da interpretação de Ivo Müller o perfeito veículo.

A técnica absoluta do ator, unida à forte marcação de cena, aos figurinos de Domingas, ao cenário de janelas vazadas, baús e livros, aos instantes delineados pela luz (do experiente Davi de Brito e de Vânia Jaconis) e à música de Gustav Mahler – conterrâneo de Rilke -, consagram Cartas a Um Jovem Poeta como um alinhamento de elementos cênicos eficientes e tocantes.

Mahler dá uma contribuição à parte. É o adagietto da 5ª. Sinfonia do compositor, a mesma utilizada por Luchinno Visconti em Morte em Veneza (diga-se de passagem, por indicação do próprio autor do livro, Thomas Mann), que nos entrega agora Rainer Maria Rilke a toda a sua busca, sua via dolorosa dos sentimentos internos, como os próprios textos colocados na voz do intérprete. O adagietto de Mahler praticamente dança com as cartas de Rilke.

Rainer Maria Rilke viveu entre 1875 e 1926, portanto viveu a passagem do século 19 para o século 20, um momento tortuoso para a Humanidade. Ele atravessou essa passagem do século como muitos outros de sua geração (leia-se  Mahler, Picasso, Freud, Jung, Nietzsche, Stravinsky, Górki, Tchekhov, Einstein, Diaghilev, Ravel, Debussy, Satie, H.G. Welles, Rodin e toda uma constelação de artistas e intelectuais de todos os campos da criação humana) e acabou por se tornar uma espécie de contraponto a um martírio civilizatório.

Rilke assistiu à franca decadência do perigoso jogo político e do poderio das metrópoles coloniais européias, o que detonou, em 1914, a 1ª Guerra Mundial. Dessa forma, ele e sua poesia compuseram uma flor no meio do asfalto, um brilho de luz em meio às trevas da civilização. Uma luz que doía, que se contorcia, como nesses versos (de O Torso Arcaico de Apolo): “E nem explodiria para além de todas as fronteiras / Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar / Que não te mire: precisas mudar de vida.”

Fica na lembrança o espaço cênico que deixa suas arestas abertas, ou melhor, completo pela poesia, de baús e dores, de amores e a criação da palavra, tão rica e cara, que a encenação vigorosa e intensa dividida pela sensibilidade de Claudio Cabral e Ivo Müller traz à luz de nossas mentes. O texto do poeta austro-húngaro é muito atual.

Como platéia, a gente se reconhece, enquanto partícipes de um mundo em absoluta decadência, e a nítida sensação de que precisamos de muitos Rilkes.

São vários os textos utilizados na montagem, compondo um Rilke múltiplo e verdadeiramente amplo, pulsante. Por isso, Cartas a Um Jovem Poeta, como espetáculo, é um mundo onde a interpretação do ator compartilha com a platéia presente a visão do poeta e procura, de forma irresistível, como o próprio Rilke, o fundo das coisas, aquelas a que nem a ironia, nem a falta de sentido conseguem chegar, felizmente. O fundo das coisas que nos é tão caro, em nossos dias.

CARTAS A UM JOVEM POETA

Texto: Rainer Maria Rilke

Adaptação e Interpretação: Ivo Müller

Direção: Claudio Cabral e Ivo Müller / Supervisão: Arieta Corrêa

Iluminação: Davi de Brito e Vânia Jaconis

Figurino: Domingas Person

Música: Gustav Mahler

Produção: Domingas Person e Ivo Müller

De 31/03 a 29/04, quarta e quinta-feira, 20h

Viga Espaço Cênico, R. Capote Valente, 1323 (Metrô Sumaré) / Tel: (11) 3801-1843

Site: www.viga.art.br e www.cartasaumjovempoeta.com.br

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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