CataDores: dois palhaços provocam reflexão

Maurício Mellone* (aplauso@gmail.com)

Paulo Gorgulho e Jairo Mattos, ao lado do maestro Marcello Amalfi, voltam a encenar o espetáculo de Cláudia Maria de Vasconcellos que conta a história de dois palhaços que questionam o sentido da vida

Até 9 de outubro o Teatro Eva Herz traz de volta à cidade a fábula CataDores, da premiada dramaturga da nova geração, Cláudia Maria de Vasconcellos, com direção de Jairo Mattos, que divide o palco com Paulo Gorgulho e o maestro Marcello Amalfi, que não só compôs a trilha sonora como participa em cena como um músico ambulante que tem diversos instrumentos grudados ao corpo e pontua o espetáculo.

Palhaços fazem rir, mas estes dois, mesmo maquiados e bem caracterizados, fazem o público refletir sobre a vida cotidiana e rotineira.

Desde a cena inicial a autora já dá o tom de sua fábula — que ela define como existencial para dois palhaços: o velho palhaço vivido por Paulo Gorgulho resolve extirpar as causas de suas dores, arrancando os calos, a corcunda, o bigode e troca os cabelos brancos por uma cabeleira negra. Vira um rapaz forte e bem disposto! Sua relação com o companheiro começa a modificar, mas eles continuam a caminhada, catando papéis pela vida.

Num cenário que lembra o circo (eles giram em círculo enquanto trabalham/vivem), não só os atos são repetitivos, mas os sentimentos e os pensamentos. A rotina da vida é reproduzida em cena e é exatamente essa rotina que num determinado momento o velho/novo palhaço questiona o amigo.

Viver é essa repetição de atos, pensamentos e sentimentos? O outro, interpretado por Jairo Mattos que também assina a direção da peça, fica sem resposta. Ou melhor: joga a questão para a platéia. Viver é essa repetição, essa rotina? Ser feliz é essa rotina de catar papel, cata (r) dor?

"CataDores"

Muitos como eu, acredito, saem da sala de espetáculo com um oco, um vazio, uma sensação de incertezas diante da vida. Se palhaço tem o dom de alegrar, os palhaços de CataDores são engraçados, mas provocam muito mais o siso que o riso. Refletir sobre o sentido da vida é o que esses doces palhaços nos proporcionam.

Interpretação sensível e tocante de Gorgulho e Mattos, com destaque ainda para o cenário de Aluísio Salles, a Iluminação de Ari Nago e a comunicação visual de Aline Abovsky que não funcionam como acessórios, mas como partes essenciais para a composição do espetáculo.

Roteiro:
CataDores
.Texto: Cláudia Maria de Vasconcellos. Direção: Jairo Mattos. Elenco: Jairo Mattos e Paulo Gorgulho. Trilha sonora original e música ao vivo: maestro Marcello Amalfi. Assistente de direção: Carlos Baldim. Iluminação: Ari Nago. Cenário: Aluísio Salles. Figurinos: Vania Gnaspini.  Adereços: Armando Junior. Maquiagem: Caco Mattos

Serviço:
Teatro Eva Herz, Livraria Cultura – Conjunto Nacional, Av. Paulista, 2073. Sextas e Sábados 21h. Domingos 19h. Ingressos: Sexta R$ 40. Sábado e Domingo R$ 50. Duração: 70 minutos. Recomendação: 12 anos. Bilheteria:             (11) 3170-4059       / www.teatroevaherz.com.br. Temporada: até 09 de outubro.

Maurício Mellone, para o site Favo do Mellone

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado

*