Celso Frateschi vive Giordano Bruno

Maurício Mellone, editor do Favo do Mellone site parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Processo de Giordano Bruno" = foto de João Caldas

Sob direção de Rubens Rusche, o ator encarna o filósofo que foi queimado vivo pela Inquisição por defender suas ideias e se opor aos dogmas e intolerâncias da igreja católica em Processo de Giordano Bruno

SÃO PAULO = Em curta temporada no SESC Vila Marina, Processo de Giordano Bruno, montagem que relata os últimos anos de vida do filósofo Giordano Bruno — vivido com brilhantismo por Celso Frateschi — antes de sua condenação pela Inquisição, em fevereiro de 1600.

Com texto do italiano Mário Moretti, tradução e direção de Rubens Rusche, a peça Processo de Giordano Bruno é constituída de duas partes: a primeira mostra o filósofo, que era da Ordem dos Dominicanos, em Veneza como hóspede do nobre Giovanni Mocenigo, que desejava aprender a arte da memória. Como não concorda e se assusta com as ideias revolucionárias de seu hóspede, Mocenigo o denuncia à Inquisição. Na segunda parte, vemos Giordano Bruno preso em Roma e respondendo ao processo que o levará à morte (foi queimado vivo no Campo das Flores, depois de oito anos de processo); para se livrar da condenação ele teria de abjurar suas teorias do mundo infinito, suas ideias sobre heliocentrismo (o Sol como o centro do sistema solar e não a Terra), a existência de vida em outros planetas, entre outras teorias. Ele se recusa e morre por seu ideal.

Com cenário compacto (apenas um tablado em formato de cruz e uns módulos) e figurino sóbrio (hábitos pretos para os inquisidores e branco para o condenado), ambos assinados por Sylvia Moreira, a montagem dá ênfase ao texto, principalmente à defesa do ideário de Giordano Bruno, tão à frente de seu tempo.

Os embates de ideias na primeira parte são mais amenos, já que Bruno estava como hóspede e seu anfitrião tinha curiosidade e sede de saber. Mas como fica perturbado com as novidades e como as teorias do filósofo se opunham à visão restrita e intolerante do catolicismo, o nobre faz a denúncia e Bruno é conduzido para responder ao processo da Inquisição, a pedido do Papa.

"Processo de Giordano Bruno" = foto de João Caldas

Já em Roma, preso e debilitado fisicamente, Giordano Bruno é inquirido pelas autoridades eclesiásticas e é obrigado a defender suas teorias.

Este momento da peça é, na minha visão, o mais interessante para a plateia: como Bruno era um estudioso e ligado à astronomia, defendia a teoria de Copérnico — a Terra como pa00rte do sistema solar e não mais como o centro do universo —, além de acreditar num mundo infinito, na existência de vida em outros planetas e no panteísmo, a identificação com o pensamento contemporâneo é imediato. Por isso que, em determinadas passagens, o público chega a rir compulsivamente com a defesa patética do representante da igreja católica, que rebate o pensamento de Bruno. Dentre algumas de suas argumentações, o religioso afirma que a verdade é única, a católica; portanto universal. O riso é geral.

Processo de Giordano Bruno prova como a igreja católica evoluiu muito pouco mesmo com o avanço da humanidade nestes mais de quatro séculos. Em diversos momentos da peça, lembrei-me como o teólogo brasileiro Leonardo Boff sofreu com a censura imposta pela Igreja nos anos 90 quando foi inquirido por Joseph Ratzinger, hoje o Papa Bento XVI.
O grande destaque da montagem, sem dúvida, é para a atuação de Celso Frateschi: com que vigor o ator encarna o injustiçado filósofo! Porém, este mérito deve ser dividido com outros companheiros de cena, André Correa, Angelo Brandini, Dagoberto Feliz, Hermes Baroli e William Amaral, tão densos e vigorosos quanto Frateschi.


Roteiro
Processo de Giordano Bruno
. Texto: Mário Moretti. Direção e tradução: Rubens Rusche. Elenco: Celso Frateschi, André Correa, Angelo Brandini, Dagoberto Feliz, Hermes Baroli e William Amaral. Cenografia e figurinos: Sylvia Moreira. Iluminação: Wagner Freire.

Serviço:
SESC Vila Mariana (608 lugares), Rua Pelotas, 141. Telefone – 5080-3000. Horários: sextas e sábados às 21hs e domingos às 18hs. Ingressos: R$ 24,00 (inteira), R$ 12,00 (usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino), R$ 6,00 (trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no SESC e dependentes).Bilheteria: terça a sexta das 9h às 21h30, aos sábados das 10h às 21h30, domingos e feriados das 10h às 18h30. Informações – 0800 118220.Acessibilidade. Duração: 90 minutos. Temporada: Até 10 de junho.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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