Cia. Provisório-Definitivo apresenta relatos de jovens sobre guerra

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

As Estrelas 1Em processo colaborativo do grupo e o diretor Nelson Baskerville, As Estrelas Cadentes do Meu Céu São Feitas de Bombas do Inimigo traz depoimentos de crianças e adolescentes sobre horrores da guerra

SÃO PAULO – Partindo de relatos coletados nos livros Diários de Guerra – Vozes Roubadas (de Zlata Filipovic e Melanie Challenger) e no Diário de Anne Frank, os atores da Cia Provisório-Definitivo (Carlos Baldim, Paula Arruda, Pedro Guilherme e Thaís Medeiros) em conjunto com o diretor Nelson Baskerville conceberam o que eles chamaram de peça-documentário. Em As Estrelas Cadentes do Meu Céu São Feitas de Bombas do Inimigo — em cartaz no SESC Consolação, Espaço Beta, somente segundas e terças — o espectador tem contato com histórias de crianças e de adolescentes que sofreram com os mais variados conflitos ocorridos no mundo, desde histórias da Primeira Guerra Mundial, da guerra do Vietnã, da Segunda Guerra Mundial, dos eternos conflitos do Oriente Médio, assim como as agruras vividas em Cingapura, da invasão do Iraque até a nossa guerra atual de traficantes nas periferias das cidades brasileiras. O grande objetivo do espetáculo é, por intermédio da visão do jovem que sofreu na carne o terror irracional da guerra, provocar uma reflexão sobre o que leva o Homem a viver constantemente em situação de conflito.

Literalmente enjaulados com telas transparentes no espaço cênico, os atores intercalam os relatos das crianças e adolescentes, sem se preocupar com a ordem cronológica e histórica dos acontecimentos; assim, com o auxílio de vídeos com reportagens e filmes de guerra e textos projetados na tela, o espectador vai se inteirando da triste e dolorida realidade daqueles jovens.

E para que não ficasse somente com histórias do exterior, o diretor sugeriu que a peça trouxesse um relato brasileiro: do documentário Jardim Ângela de Evaldo Mocarzel, a peça recupera o relato dolorido do jovem Washington, que sofre duplamente, de um lado com a pressão do tráfico e de outro com a discriminação policial.

“Era importante trazer esse tema da guerra também para os trópicos, com o objetivo de questionarmos sobre qual é a guerra de cada um”, diz Nelson Baskerville.

O maior destaque da montagem é sem dúvida sua plasticidade. Além das telas transparentes e caixas com múltiplas funções que dão um caráter lúdico e onírico ao ambiente, a iluminação é outro elemento fundamental para a narrativa: os atores levam pequenos holofotes na cabeça que são acesos e desligados para marcar as falas. O figurino, que mistura elementos infantis e adultos, e a pesada maquiagem completam o visual da peça, que provoca um distanciamento intencional entre a narrativa e o público:As Estrelas 2

“O espectador, colocado dentro desta ‘caixa de guerra’, é levado a pensar sobre os conflitos. Quem causa a guerra somos nós, pela posse, pela propriedade. Queremos algo que é do outro e vamos tomar à força”, argumenta o diretor.

Os atores, no programa da peça, sustentam que desejam com As Estrelas Cadentes do Meu Céu São Feitas de Bombas do Inimigo indagar qual o papel de cada um de nós no processo evolutivo da sociedade:

“Estas histórias falam sobre os seres humanos. Independentemente de idade, territórios ou crenças, elas falam da humanidade. É isso que faz com que sejam tão próximas e tão distantes, tão coerentes e ao mesmo tempo tão absurdas, tão belas e pavorosas”.

Sem dúvida a montagem é corajosa justamente por lidar com um tema tão duro e terrível como a guerra. Senti certo incômodo com o distanciamento proposto pela montagem, mas saí da sala de espetáculo impactado. Não deixe de conferir, mas fique atento: a peça é apresentada somente às segundas e terças, até o dia 19 de março.

Roteiro:
As Estrelas Cadentes do Meu Céu São Feitas de Bombas do Inimigo. Dramaturgia: Carlos Baldim, Paula Arruda, Pedro Guilherme, Thaís Medeiros e Nelson Baskerville. Direção: Nelson Baskerville. Elenco: Carlos Baldim, Paula Arruda, Pedro Guilherme e Thaís Medeiros. Assistente de direção: Sandra Modesto. Preparação corporal: Neca Zarvos. Cenário: Cynthia Sansevero e Nelson Baskerville. Figurino: Marichilene Artisevskis. Assistente de direção: Sandra Modesto. Iluminação: Aline Santini e Nelson Baskerville. Sonoplastia: Gregory Slivar. Projeto audiovisual: Lucs Bêda.  Visagismo: Emi Sato. Fotos: Ligia Jardim e Douglas Rennê.

Serviço:
SESC Consolação, Espaço Beta (50 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, Tel: 3234-3000. Horários: segundas e terças, às 21h. Ingressos: R$ 10,00 (inteira); R$ 5,00 (usuário SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e prof. estaduais); R$ 2,50 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes). Duração: 60 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até dia 19 de março de 2013.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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