Clarice, Ainda uma Pergunta

Luis Fabiano Teixeira, especial para Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Homenagem de Luis Fabiano Teixeira a Clarice Lispector
Homenagem de Luis Fabiano Teixeira a Clarice Lispector

Ao longo da vida, a escritora Clarice Lispector colecionou diversos adjetivos, a maioria enfatizando um lado mítico seu que, aparentemente, a incomodava: “Sou uma mulher simples. Não tenho sofisticação. Parece que me mitificaram” – costumava reivindicar, mas sem revolta. Depois da sua morte, em dezembro de 1977, no auge da popularidade, muitos se lançaram, às escuras, na tentativa de desvendar os seus mistérios e iluminar episódios da sua vida particular, mas poucos foram tão bem-sucedidos quanto o norte-americano Benjamin Moser, o autor da gigante Clarice,, biografia publicada nos Estados Unidos, no ano passado, e que chegou ao Brasil cheia de expectativa.

Desde o seu lançamento, Moser tem sido bastante incensado pela imprensa brasileira: jovem (32 anos), estrangeiro, “apaixonado” por Clarice e falando um bom português, logo chamou atenção. E todos estavam certos em reconhecer o seu talento. Ele investiu cinco anos de sua vida no projeto e correu mundo em busca de informações que refizessem a trajetória de Clarice e ainda revelassem alguns fatos, até então, obscuros. Com uma rica personagem nas mãos, um texto envolvente e uma ótima tradução de José Geraldo Couto, chegar à lista dos mais vendidos por aqui não foi tão difícil. Existe até uma torcida animada para consagrá-lo “o livro do ano”, mas é aconselhável também não exagerar.

O primeiro contato do leitor com a obra, depois da belíssima capa, é claro, é com silenciosas páginas negras que, além de convidá-lo para uma imersão no universo “oculto” de Clarice, também sugerem que o enigma dela não tem fim. Recado inicial dado, parte-se para uma introdução bem didática, reforçando duas das principais características que a tornaram uma espécie de “divindade”: a sua imagem fascinante e um duelo provocativo com a Esfinge, numa viagem ao Egito, em 1946. “Vi a Esfinge. Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou” – disse orgulhosa. Até aí tudo muito previsível, em se tratando de Clarice Lispector, mas o livro só começa a ganhar fôlego mesmo, um pouco depois, quando passa a investigar a sua origem judaica, no Leste Europeu.

Clarice nasceu numa pequena aldeia, na Ucrânia, em dezembro de 1920, em plena fuga dos pais para a América, após forte perseguição aos judeus. Recebeu um nome bastante sugestivo, Chaya, que em hebraico significa “vida”. Ela só seria rebatizada como a conhecemos, dois anos depois, quando a família chega ao Brasil. Antes, porém, há o relato comovente e aterrador do estupro da sua mãe, Mania Lispector, por um bando de soldados russos. Esse fato marcaria definitivamente a vida das duas. Mania contraiu sífilis e dar a luz, segundo uma superstição, a curaria da doença, mas isso não se realizou e ela faleceu quando Clarice tinha apenas nove anos. A escritora sempre se lamentou, em tom de culpa, por não ter podido salvá-la. Nessa época, todos já moravam modestamente no Recife, cidade onde Clarice guardaria lembranças ternas e de onde herdaria o leve sotaque pernambucano. No conto Os desastres de Sofia, por exemplo, por trás da personagem que “não é flor que se cheire”, ela afirma: “Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia”, numa referência velada a esse período tão doloroso. Mas a sua infância não foi só sofrimento e pobreza, foi também uma das mais férteis em imaginação e travessuras. E essas passagens saborosas são ótimas de acompanhar porque a “humanizam”.

A narrativa traz ainda um importante quadro histórico do Brasil, com variados depoimentos e citações. Nesse aspecto, poderia ser um pouco mais enxuta, porque muitos deles se repetem, até com um certo exagero, como o do poeta Lêdo Ivo, que aparece três vezes. Também não faltam assuntos mais delicados como o affair da escritora com o poeta e cronista Paulo Mendes Campos, que, embora ela nunca escondesse, sempre foi tratado com alguma reserva pelos seus biógrafos anteriores. Ou o patético assédio do ex-presidente Jânio Quadros em que foi vítima: “Sua excelência convidou Clarice a um quarto privado, onde se pôs a apalpá-la com tanto ardor que, na luta para afastá-lo, ela rasgou o vestido”. Talvez, nos assuntos mais arenosos, como o mais difícil deles, o câncer que a levou à morte, a paixão de Moser por Clarice o impediu de ir mais além, mas é louvável o seu esforço constante em mostrá-la cada vez menos inatingível.

Moser também se dedica com entusiasmo à obra de Clarice, buscando não só revelar curiosidades, mas também investigando os autores que ela leu, a impressão que eles lhe causaram e até a sombra esmagadora dela na obra do escritor Caio Fernando Abreu. “Fui ler, aos treze anos, Hermann Hesse e tomei um choque”, ela declarou na famosa entrevista à TV Cultura, meses antes de morrer, referindo-se ao livro O Lobo da Estepe (1927), que enfoca a desagregação do homem diante do seu sofrimento mais íntimo. É possível reconhecer a influência desse livro em, pelo menos, dois de seus romances: Perto do Coração Selvagem, sua estreia na literatura, e A Paixão segundo G.H., um dos mais emblemáticos da sua obra. Fica, no entanto, a eterna dúvida: Clarice, algum dia, teria realmente “tirado a máscara”, para uma nova encarnação do seu eu, como sugere o personagem de Hesse, ou a teria mantido presa, inflexível, até o fim, dissimulando que era apenas “uma mulher simples”? A verdade é que essa resposta ninguém nunca saberá, ou apenas ficaremos tateando no campo ambíguo das possibilidades, porque, quando se trata de Clarice Lispector, a melhor definição ainda é a da própria escritora: “Eu sou uma pergunta”. E continuará sendo.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

3 Comentários
  1. Gostei de seu texto, Luis, e embora conhecesse algumas passagens da vida de Lispector, surpreendi-me com outras (como sobre o estupro e o assédio de Jânio – eh, Jânio, hein?).

    Confesso que pouco compreendo de Clarice. Se ela disse que não decifrou a Esfinge, e que neste esta, a ela, digo que nunca decifrei Clarice. E isso, confesso, frustra-me imensamente. Virginia Woolf disse, repetindo um poeta ingles, que certos autores tem de ter mente androgino; eu digo que certos leitores tb tem de ter para poder compreender o lado masculino e o feminino dos textos. Pois acredito haver “gêneros” e textos.

    Vi uma entrevista de Lispector (reprise na Cultura) e me apaixonei por ela. Foi aí que meu desejo cresceu. Mas, como disse, sou frustrado. Aquela mulher de uma tristeza que corta a gente como folha de sulfite é uma bruxa… mas, que bruxa!

    Abraços, Luis.

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