COM ACESSO: O Intento de Estela Lapponi chega ao Teatro Sérgio Cardoso

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com

SÃO PAULO – Um dos significados da palavra intento – que nomeia o espetáculo-solo de Estela Lapponi que será apresentado hoje e amanhã no Teatro Sérgio Cardoso – é intenção que por sua  vez está atrelado ao sentido de “desejar fazer algo”. E é isto que Intento3257_5, que integra a Mostra + Sentidos, pretende: em uma performance de três movimentos que, nas palavras de Lapponi “é uma forma que eu encontrei de nomear os experimentos cênicos da minha investigação Corpo Intruso.

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Tal investigação cênica teve seu início em Madri quando Estela fazia Master em Práticas Cênicas e Cultura Visual, entre 2010 e 2011, e consiste em apresentar a personagem Zuleika Brit (personagem/ contêiner do termo Corpo Intruso), mesclado às histórias pessoais vividas pela interprete, além de refletir sobre o próprio fazer artístico.

Avessa à abordagem dada pela mídia que, ao falar sobre um artista que é deficiente, sobrepõe a deficiência à arte que produzem, Estela, que sofreu um AVC quando se preparava para apresentar um espetáculo de rua, dedica sua trajetória artística à investigação desse peculiar processo artístico, temas e pontos de vista de abordagem dos mesmos, além de investir na PLATAFORMA ACESSOLIVRE (que deseja reunir artistas com deficiência e pesquisadores com/ ou sobre o fazer artístico X deficiência) desejando limpar a política assistencialista com que o deficiente ainda é tratado

Em entrevista exclusiva ao Aplauso Brasil, Estela Laponni fala  sobre a Mostra + Sentidos, sobre Intento 3,227_5 e sobre a PLATAFORMA ACESSOLIVRE.

Aplauso Brasil –O que representa a Mostra + Sentidos para sua carreira artística e para a classe artística com deficiência física visível?

Estela Lapponi – É uma Mostra importante que quer celebrar a diversidade e trazer à luz o trabalho dos artistas com deficiência. Não se pode esquecer que os artistas com deficiência já atuam há pelo menos 16 anos. Em 1997 houve um encontro em Boston com grupos de dança da América Latina e do Norte e Europa, onde, dentre outras coisas, eles discutiram sobre como chamar essa “nova forma de arte”, ou seja,  artistas com deficiência não é algo novo nem inovador , se olharmos pra história haviam o circo com seus freaks shows. O que tem que ser inovador HOJE, e o que eu espero que a Mostra +Sentidos faça, é o modo do outro enxergar a arte produzida pelo artista com deficiência como ARTE, ponto! Só que vendo nas matérias que saíram em alguns meios, ainda se fala em uma Mostra de arte inclusiva e quando se diz que a arte feita por pessoas com deficiência deve receber essa nomenclatura – arte inclusiva – ainda se comete a exclusão quando que o desejado é a “inclusão”. Acaba por repetir o paradigma em relação ao corpo com deficiência na arte ou seja onde for . Digo isso tudo sobre o ponto de vista como artista contemporânea  que possui deficiência física. Sob o ponto de vista de público a Mostra +Sentidos é uma mudança mais que positiva, pois trata-se de um evento de grande porte (vários dias de programação, diversidade da programação) que promove a acessibilidade comunicacional. Uma equipe super preparada desde a entrada do teatro até à sala de espetáculo. Toda a programação tem tradutor de LIBRAS, tablet com legendagem de texto, audiodescrição e isso eu acredito ser de extrema importância e grande exemplo para os produtores e gestores culturais, bem como para as Instituições Culturais.

AB – O que e para quem é Intento 3257_5?

EL –  INTENTO vem sendo uma forma que eu encontrei de nomear os experimentos cênicos da minha investigação Corpo Intruso. Uma maneira de alimentar a investigação no fazer, na ação, em performance. O INTENTO 3257,5 é o primeiro INTENTO que realizei, foi a conclusão com reticências da primeira etapa de investigação Corpo Intruso no âmbito do Máster em Práticas Cênicas e Cultura Visual que cursei em Madrid (2010/2011). Ele é como a introdução à investigação, de onde surgiu esse termo, o que é esse termo, a apresentação de Zuleika Brit (personagem/contêiner do termo Corpo Intruso); tudo isso misturado à histórias pessoais, história de lugares por onde passei, minha origem … acumulando significados e recriando novos significados. Ele fala também sobre o fazer da cena, estabelecendo contato direto com o participante. Pra quem é Intento? Essa   é uma pergunta difícil de responder, como nos editais qual é o público-alvo (risos) Acredito a quem interessar possa … a quem se interessar por: dança, artes visuais, teatro, cinema, filosofia, ciência política, psicologia, antropologia, sociologia e até mesmo por inclusão … apesar de eu não falar sobre esse último citado. Mas uma coisa tem sido constante em meu trabalho desde que comecei como artista independente, que é o fato das crianças se interessarem pelo espetáculo ou performance. Sem eu pensar em me comunicar com as crianças, elas me mostram que falo com elas. Isso foi e tem sido uma surpresa mais que agradável.

AB – O que é a PLATAFORMA ACESSOLIVRE?

EL – Desejo que ela seja um ponto: de encontro, de emancipação do artista em relação à nomenclatura “inclusiva”, de fortalecimento da presença no mercado cultural fora do eixo inclusivo, de intercâmbios artísticos, de iniciativas, de formação e outras coisas que podem surgir com a efetivação da plataforma, vai depender das pessoas que estarão envolvidas.

AB – E quais as estratégias de ação da PLATAFORMA ACESSOLIVRE?

EL –  A primeira estratégia de ação para realizar isso é a Convocatória para Mapeamento, para que a gente saiba quem e quantos somos, o que fazemos?, onde estamos?

AB – E a CASA DE ZULEIKA?

EL –  A CASA DE ZULEIKA é um espaço que irei inaugurar no segundo semestre de 2014. A CASA será um espaço de cultura que tem desde o princípio o conceito de acessibilidade tanto arquitetônica quanto comunicacional. A CASA DE ZULEIKA se pretende um espaço flexível para cursos, workshops, mostras de artes visuais, peças e performances que tenham o corpo contemporâneo como foco. A CASA DE ZULEIKA será um espaço flexível, mas que manterá, ao mesmo tempo, o aspecto de casa, como forma de colaborar para formação de público da arte contemporânea, investigar novas formas de relação com o público, de mudar a relação hierárquica entre artista e público. Sendo a CASA um espaço de cultura acessível, pretendo que a Plataforma Acessolivre alimente a programação da CASA DE ZULEIKA e que atinja um público interessado em ARTE CONTEMPORÂNEA.

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Hoje, 21h

Domingo, 19h

Teatro Sérgio Cardoso

Endereço: Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista, São Paulo – SP
Estações do Metrô Próximas: São Joaquim e Brigadeiro
Horário da bilheteria: quarta a sábado a partir das 14h
Telefone: (11) 3288-0136

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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