COM DIREÇÃO DE CÁCIA GOULART, “EU TENHO TUDO” ESTREIA NO VIGA ESPAÇO CÊNICO

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com.br)

EU TENHO TUDO- foto Cacá Bernardes-1 SÃO PAULO – Texto do argelino Thierry Illouz, autor inédito em língua portuguesa,apresenta uma reflexão sobre a relação entre os homens contemporâneos. O espetáculo estreia sexta-feira (29).

Um homem, cego de ódio, prepara-se para um encontro com outro homem, numa estação de trem. Embora o outro nunca apareça em cena, o público pode imaginar quem seja a partir da quantidade de ofensas e xingamentos que o protagonista de Eu Tenho Tudo direciona a ele. Naturalmente, a quantidade imensa de agressões verbais coléricas fala tando sobre o receptor quanto sobre seu o emissor.

Para Pedro Vieira, ator e idealizador do projeto de traduzir o original de Thierry Illouz , a montagem apropria-se da potência da obra do argelino, cheia de ambivalências e contradições, expondo as dinâmicas de poder e opressão que existem nas relações humanas.

“Neste momento em que passamos por uma inaudita turbulência política, com o inesperado recrudescimento de discursos conservadores e fascistas, em que o preconceito e a intolerância defendidos no âmbito privado se espalham, despudoradamente, pelas mídias sociais até descobrir as ruas onde não se constrange em mostrar a face, orgulhosos de si e cheios de certeza, só resta à arte – e notadamente o teatro, que é por excelência político desde o seu nascimento – apostar em expressões que não corroborem o que já se pensa, mas que suscitem a dúvida. De preferência, radicalmente”, explica Pedro.

Embora com um correspondente direto na máxima “o inferno são os outros” de Sartre, o texto de Illouz estuda o indivíduo não só em relação ao outro, mas também em relação ao possuir. “Ter” é a medida de sua individualidade, ao passo que “ter tudo” expõe a ambição e o vazio contemporâneos.

As ambivalências também são contempladas pela cenografia, que aposta em elementos simples como um espelho, um banco e botões dourados que podem se passar por moedas. A diretora do espetáculo, Cácia Goulart, que também assina a cenografia,  diz que prefere o espaço limpo para reforçar a potência da palavra.

“Para mim, muitas vezes,  o plano concreto de uma estação de trem, com as analogias óbvias que aí são suscitadas, mais a carga simbólica inerente a essa imagem, configura-se como uma espécie de fantasmática em que o destino certo de partida ou de chegada se confunde com um lugar-nenhum subjetivo, povoado de neuroses e traumas, sem um ponto seguro para a fixação de um eu e de um outro que finalmente – para bem ou para mal, para a vida ou para a morte – pudessem se relacionar”, afirma.

EU TENHO TUDO
Texto – Thierry Illouz.
Tradução– Bibianne Riveros.
Atuação – Pedro Vieira.
Direção e Cenografia – Cácia Goulart.
Assistente de Direção – Zé Geraldo Junior

Serviço:
De 29 de janeiro a 10 de abril. Sextas e sábados, 21h; domingos às 19h.
Viga Espaço Cênico – Rua Capote Valente, 1323, Sumaré. Sala Piscina.

Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia)