Com direção de Sandro Borelli, solo de Marcos Abranches quer revelar angústias universais

“O Idiota” . Crédito: Gal Opido.

EM REDE – Além da saudade de trabalhar com o coreógrafo e diretor Sandro Borelli, o bailarino Marcos Abranches sentiu forte desejo de mostrar ao mestre, um dos principais incentivadores no início de sua carreira, seu amadurecimento artístico. Depois de 15 anos, a dupla se reencontra e estreia o solo de dança O Idiota, em apresentações online (via Zoom) e gratuitas a partir de 17 de julho, às 21 horas.

Planejada para entrar em cartaz em abril, teve a temporada adiada por conta da pandemia da Covid-19, assim como diversos eventos culturais, e ainda não tem previsão de ser apresentada em palco físico. Abranches trouxe a ideia de trabalhar com a figura do palhaço, enquanto Borelli acentuou o tom político da encenação.

Com duração de 45 minutos e forte inspiração na obra máxima de Fiódor Dostoiévski, o espetáculo resulta de gravação de 30 minutos do trabalho cênico desenvolvido, com distanciamento e medidas de segurança, no palco da sala do espaço cênico de Sandro. O público verá, ainda, a vídeo arte do fotógrafo Gal Oppido, a partir da solo.

Concebido para ser encenado no palco, O Idiota não foi adaptado para o formato audiovisual. Sandro recusou-se a pensar o espetáculo em vídeo. Tem figurino simples, de acordo com a estética em que o encenador transita – calça, tênis e camiseta. Como adereço cênico, apenas uma poltrona no meio do palco. A trilha sonora de Pedro Simples sustenta a obra e dialoga com o personagem.

Universal e político

O que era para ser apenas uma provocação dramatúrgica, ganhou terreno quando Sandro, ao assistir um ensaio, enxergou o forte potencial da obra. Disse no ato “isso é muito Dostoievski” ao identificar Míchkin, o personagem de uma dos mais célebres obras da literatura mundial, nos movimentos de Marcos Abranches.

Estimulando Abranches a buscar referências mais universais e menos pessoais, assumiu a direção e começou a conceber a montagem. Quando veio pandemia e eles tiveram de parar, como a obra exigia contato físico, o dueto com Ricardo Neves já não se mostrava mais possível pela necessidade de distanciamento.

“Transportei para a realidade brasileira a questão do personagem dialogar consigo mesmo”, diz o encenador. “Ricardo saiu de cena e quando os ensaios foram retomados no meu espaço cênico, já na quarentena, tudo se definiu e ganhou contornou políticos marcantes.”

A ideia de Borelli é revelar um Marcos Abranches diferente do que seu público está acostumado a ver, com movimentos mais controlados, contidos, a fim de ter uma abrangência maior. “Está na hora de surpreender quem acompanha você”, atiçava Sandro nos ensaios. “Marcos sempre foi passional em cena, é intenso fisicamente. Que tal virar a página, apresentar angústias universais”, instigava o amigo. “Esse freio é a maneira de estar presente em cena, se vigiando o tempo todo. Marcos está neste foco agora.”

Pai artístico e referência

Foram cinco anos de parceria profissional, tempo que Marcos aproveitou ao máximo a rica convivência com Borelli, o “pai artístico”, em pesquisas e laboratórios de ensaio. Depois ansiava por novas linguagens, por conhecer outros caminhos da dança, criar asas e alçar diferentes voos.

“Está sendo importante contar com o olhar experiente de Sandro”, diz Abranches. Ele nunca saiu da minha dança, da minha arte e da minha vida pessoal. Sempre esteve no meu ponto de vista como referência em dança, arte e mundo. É um deus artístico que apareceu na minha vida.”

Depois de assistir algumas vezes o filme O Coringa, Marcos focou sua pesquisa e ambição em alcançar “o mesmo nível de potência” do personagem do cinema. “Fiquei encantado com a atuação do ator Joaquim Phoenix, que faz um psicopata e, ao mesmo tempo, é um palhaço”, afirma, revelando ter o sonho de trabalhar no teatro e cinema. “No momento, me considero ator-bailarino, um ator que interpreta com movimentos com em cena.”

Pimenta e veneno

Borelli e Abranches se inspiraram no “cidadão de bem”, que é corrupto de segunda a sexta e nos fins de semana vai à igreja; e é homofóbico, mas diz ter amigos gays. “É ingênuo politicamente, crente em Deus, enganado pelo poder da elite russa.” Sandro Borelli pesou a mão, foi jogando mais pimenta, mais veneno, até que transformou-o em um espetáculo político.

Sobre a primeira inspiração de Marcos Abranches, Sandro Borelli pondera que o personagem Coringa, no filme Todd Phillips, é perigosíssimo por ser um palhaço sinistro. “A partir desta figura, faça uma crítica social”, pediu o diretor ao bailarino, “observe a tragédia da Cracolândia”, e então a criação fluiu de vez. .

Ao final das sessões, haverá bate-papo com a plateia virtual e os criativos do projeto. O projeto tem o apoio do Programa de Fomento à Dança na cidade de São Paulo pela Secretaria Municipal de Cultura. As apresentação são realizadas pelo Centro de Referência da Dança da cidade de São Paulo.

Ficha Técnica
Concepção e Direção Geral – Marcos Abranches. Direção Artistica e Coreográfica – Sandro Borelli. Intérprete Criador – Marcos Abranches Vídeo arte e fotos – Gal Oppido.

Serviço
O Idiota – Apresentações online de espetáculo, vídeo arte e bate-papo 17 de julho a 2 de agosto, sexta a domingo, às 21 horas. Local: Zoom. Reserva de ingressos pelo link do Sympla. Capacidade da sala virtual: 60 pessoas. Duração – 90 minutos. Classificação etária: 18 anos.