COM PROGRAMAÇÃO REDUZIDA POR CONTA DA CRISE, 3ª MITSP PROMETE CONSISTÊNCIA

Kyra Piscitelli, do Apaluso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

Espetáculo de abertura da MITsp faz releitura do clássico infanto-juvenil "Cinderela". Foto: divulgação.
Espetáculo de abertura da MITsp faz releitura do clássico infanto-juvenil “Cinderela”. Foto: divulgação.

SÃO PAULO –  MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – chega a sua 3ª edição em 2016. Já consagrada pelo público e crítica, o evento acontecerá no período entre 4 e 13 de março. Mais enxuta por conta da crise econômica, a Mostra traz, por outro lado, novidades, como a apresentação de um espetáculo no Theatro Municipal de São Paulo. Ao todo serão dez montagens: duas nacionais e oito internacionais de países como França, Polônia, África do Sul, Congo e Alemanha.

Os idealizadores da Mostra reuniram-se com a imprensa na noite de segunda-feira (1), no Itaú Cultural. Ao lado de patrocinadores e apoiadores, Antonio de Araújo, diretor do Teatro da Vertigem e Guilherme Marques, diretor do CIT-Ecum – Centro Internacional de Teatro Ecum -exibiram orgulhosos a programação que conseguiram trazer para São Paulo. Falaram abertamente sobre dinheiro, realizações e sonhos que envolvem a MITsp.

O destaque deste ano é o francês Joel Pommerrat. Com duas montagens no Festival, o diretor e encenador foi o escolhido para abertura com um texto infanto-juvenil que propõe a releitura da conhecida história da Cinderela. A versão feita por ele parte da morte da mãe da menina. A abertura seguirá a tradição das outras edições e acontecerá mais uma vez no Auditório do Ibirapuera.

Segundo os organizadores, a MITsp traz para a edição fico na relação entre música e teatro. O público poderá conferir a interligação em espetáculos como Natureza Morta (Still Life) e  (An Old Monk (An old Monk).  

"100 City" terá olhar para a cidade de São Paulo. Foto de Tim Mitchell
“100 City” terá olhar para a cidade de São Paulo. Foto de Tim Mitchell

Outro eixo importante que deve ser destacado é que dois dos espetáculos traz o foco para a cidade de São Paulo e as reflexões e problematizações que a cidade oferece. Um deles, aliás é uma montagem internacional com o nome de 100% City, que na versão, irá tornar-se 100% São Paulo.

As ações formativas e reflexivas também continuam a todo vapor na 3ª edição. Yuri Butusov, responsável pelo espetáculo de abertura da MITsp de 2015 com A Gaivota virá para a Mostra fazer uma residência artística.

A atividade começa antes mesmo da MIT: já em 15 de fevereiro. São três semanas de duração e a ideia é que o resultado seja partilhado com o público do Festival, durante a primeira semana. O evento está com as inscrições abertas e até o começo da semana – mesmo sem divulgação – já havia recebido quase 60 interessados na residência artística.

Araújo reforça que foi um ano difícil para montar a MITsp. O país em crise e alta do dólar e euro são entraves para o projeto. No entanto, ainda assim, sente-se vitorioso: “o desenho da programação está consistente, apesar de mais compacto”.

"Le Cargo" traz a história do Congo para São Paulo. Foto de Agathe Poupenay
“Le Cargo” traz a história do Congo para São Paulo. Foto de Agathe Poupenay

Para Eduardo Saron, diretor do Instituto Itaú Cultural, o Festival traz diferenciais importantes para a área da cultura por não buscar apenas público e especularização. “Ter público é importante, mas não pode ser o ponto de partida para um valoroso projeto. Me parece que a MIT tem público, tem fila, mas vai muito além disso. Pensa na formação de público, na questão pedagógica e essas questões são muito relevantes”, disse.

O superintendente de comunicação social, Ivan Paulo Giannini lembra, ainda, que o preço foi mantido, mesmo com a dificuldade cambial: “R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada ou comerciário). É Algo muito importante”, reforçou.

"Cidade Vodu" é uma das produções brasileiras da MITsp. Foto de Ivson Miranda/Itaú Cultural
“Cidade Vodu” é uma das produções brasileiras da MITsp. Foto de Ivson Miranda/Itaú Cultural

A programação não está 100% fechada, mas isso deve ser finalizado até a próxima semana. A venda só irá começar no dia 18 de fevereiro. Entre os workshops previsto estão temas da pauta atual como o racismo e a representação do negro na arte. Para os Diálogos Transversais, atividade que propõe que especialistas de outras áreas tragam um olhar sobre os espetáculos, A MIT traz nomes consagrados como o escritor Milton Hatoum.

Diferentemente do ano passado, não foi anunciada, na coletiva de imprensa, a data para a próxima edição da MITsp. Segundo Marques, os idealizadores estão avaliando se a MITsp continua anual ou vira bianual”. Apesar da dúvida,  ele próprio admite que o ideal é que a Mostra permaneça anual:  “O Festival é da cidade de São Paulo”.

 

Espetáculos Internacionais

Ça ira (Ça ira) – França

História do diretor e encenador Joel Pommerat, a peça é uma ficção política contemporânea inspirada no processo revolucionário de 1789, a Revolução Francesa. No foco da história não estão os heróis, e sim a luta pela democracia e os mecanismos que regem os indivíduos para uma ação coletiva.

Cinderela (Cendrillon) – Bélgica

Do autor francês Joel Pommerat, a produção do Teatro Nacional da Bélgica faz uma releitura do clássico dos irmãos Grimm, a partir da morte da mãe da personagem e com um olhar para atualidade. A história foi a escolhida para abrir a MITsp e é um espetáculo infanto-juvenil.

Natureza Morta (Still Life) – Grécia

Do performer, diretor, figurinista, cenógrafo e iluminador responsável pela Abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004, Natureza Morta usa o Mito de Sísifo – homem condenado a rolar uma pedra montanha abaixo e acima pela eternidade – aos trabalhadores, relacionando- o com a realidade.

(A)polônia((A)pollonia – Polônia

Krzysztof Warlikowski, da Cia Nowy Teatr mistura personagens mitológicos governados pelo destino a luz e sombra do Holocausto que horrorizou o século XX para mostrar que o carrasco não é menos importante do que a vítima.

A Carga (Le Cargo) – Congo

Com a mistura entre dança e teatro, o diretor Faustin Linyekula, do Studios Kabako, trabalha as duras histórias do Congo para falar sobre corpos e destinos violentados. Marcados pelo curso da história.

100% São Paulo (100% City) – Alemanha

Num projeto transnacional, a Companhia de Berlim, Rimini Protokoll, propõe que 100 pessoas comuns ofereçam uma amostragem sobre o que uma parte da população de cada lugar pensa de assuntos diversos como guerra, preferências alimentares e aborto. O projeto já foi realizado na em 23 cidades do mundo.

(An Old Monk (An old Monk) – Bélgica

Na montagem assinada por Josse De Pauw e Kris Defoort, o espetáculo mistura música, dança e teatro para tratar da velhice de forma delicada e poética. Em homenagem ao músico de Jazz Thelonious, o personagem da história se entrega à dança e a música – aparecendo às vezes nu em cena –  e consegue regressar a juventude, mesmo com um corpo já cansado e velhoSouth .

Revolting Music – Inventário das Canções de Protesto que libertaram a África do Sul (Revolting Music – A Survey of the Songs of Protest That Liberated Africa)

Neo Muyanga usa as músicas pops atuais para satirizar uma revolução incompleta. Fala de mercado, da África e de liberdade em um show performático que busca re-imaginar possibilidades de mudanças.

Espetáculos Nacionais

Cidade Vodu

O diretor José Fernando de Azevedo, do Grupo de Narradores, fará a estreia de Cidade Vodu na Mostra. O espetáculo parte do terremoto que devastou o Haiti para tratar a imigração do povo para o Brasil no contexto social, político e cultural. São Paulo por ter recebido grande número de imigrantes do país aparece no foco dessa história.

A Tragédia Latino-americana

Estreia brasileira na Mostra, o projeto de Felipe Hirsch e do grupo Ultralíricos conta também com atores argentinos e chilenos para falar sobre adaptação de partes e obras inteiras latino-americanas contemporâneas. O projeto é continuação de A comédia Latino-Americana.

Mais da programação em: http://mitsp.org/2016/

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!