Comédia de época ganha boa adaptação de Miguel Falabella

Maurício Mellone, para o site Favo do Mellone, parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"A Escola do Escândalo"

Clássico de Richard Sheridan inédito no país traz no elenco 10 atores, entre eles Maria Padilha, Bruno Garcia, Tonico Pereira, Cristina Mutarelli, Rita Elmôr, Armando Babaioff e Jacqueline Laurence

Uma escola do escândalo! Digam lá! De vossa parte:
É preciso professor para ensinar tal arte?
Maledicência, meus caros, não se aprende na escola.
Mais difícil é ensinar um menino a jogar bola!
As línguas ferinas trabalham nas revistas, nos jornais,
Expondo as intimidades dos amantes, dos casais,
E se alguma maldade é ouvida, isso por certo é o que basta!

Em se tratando de Brasil, esse trecho do prólogo da comédia de Richard Scheridan A Escola do Escândalo , em cartaz no Teatro Raul Cortez, cai como uma luva! Somos o país dos escândalos: só nesse ano em Brasília quantos já não ouvimos falar pela mídia diariamente? Os vários da Casa Civil (no plural mesmo), o atual do Ministério dos Transportes e assim vamos!

"A Escola do Escândalo"

No entanto, esse texto inédito no país — traduzido, adaptado e dirigido por Falabella— trata-se dos escândalos e intrigas dos salões da corte e alta burguesia de Londres do século XVIII. Mas, incrível como são tão atuais e familiares! O espetáculo cumpriu temporada no Rio e permanecerá por aqui até setembro.

Com um elenco de 10 atores, encabeçado por Maria Padilha, Tonico Pereira, Bruno Garcia e Rita Elmôr, A Escola do Escândalo faz uma radiografia da alta sociedade londrina daquela época, mostrando a frivolidade, hipocrisia e o jogo de aparências em que viviam. Intrigas e fofocas permeavam as relações.

Parece que pouco mudou três séculos depois: no mundo social, a fofoca hoje é difundida pelos mais modernos meios de comunicação, como redes sociais e mini-blogs. Na política, os gabinetes dos governantes, deputados e senadores, em alguns casos, mais parece o mercado paralelo de tráfico; a corrupção é a moeda de troca da esfera do poder.

A comédia de Sheridan se restringe ao comportamento social de 1777, quando foi escrita, mas a adaptação de Miguel Falabella traz para os dias de hoje e passa a ser uma sátira à vida contemporânea.

Destaque para a cenografia de Lia Renha, que emoldurou a caixa preta do teatro com adornos rococó, além dos discos giratórios no palco e três espelhos que ampliam os ângulos de visão. O figurino de Emília Duncan também merece destaque.

No entanto, mesmo com dois atos e vários personagens cortados do original, a montagem é longa. As tramóias de José Fachada (Bruno Garcia) para impedir o casamento de Maria (Bianca Comparato) com seu irmão Carlos (Armando Babaioff) e como a tia Dona Olívia (Cristina Mutarelli) desmascara os sobrinhos, em determinado momento, se tornam cansativas e monótonas.

Por outro lado, a ironia e as confusões provocam muito riso e agradam muita gente. Não foi o meu caso.

Roteiro:
A Escola do Escândalo
.Texto: Richard  Brinsley Sheridan. Tradução, adaptação e direção: Miguel Falabella. Com: Maria Padilha, Tonico Pereira, Bruno Garcia, Cristina Mutarelli, Rita Elmôr, Marcelo Escorel, Chico Tenreiro, Bianca Comparato e Armando Babaioff; atriz convidada Jacqueline Laurence. Cenografia: Lia Renha. Figurinos: Emília Duncan. Iluminação: Orlando Schaider. Trilha sonora: Antonio Mecha.
Serviço: Teatro Raul Cortez (520 lugares), Rua Dr. Plínio Barreto, 285, tel. 3254-1700. Sexta às 21h30, sábado 21h e domingo 18h. Ingresso: R$80. Classificação etária: 12 anos. Duração: 120 minutos. Bilheteria: de terça a quinta, das 14 às 20h; sexta a domingo das 14h até o início do espetáculo. Aceita todos os cartões. Temporada até 18 de setembro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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