“Como esquecer” nos pergunta qual o oposto do amor

Maurício Mellone, para o site Favo do Mellone parceiro do Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Filme de Malu de Martino, com Ana Paula Arosio, Murilo Rosa, Natália Lage, Arieta Corrêa, Bianca Comparato e Pierre Baitelli

Ana Paula Arósio e Murilo Rosa em drama LGBT

Num site de divulgação do filme “Como Esquecer”, da diretora Malu de Martino, há uma promoção para a melhor resposta a uma indagação proposta no filme: qual oposto do amor? Em off, a personagem central Júlia, vivida por Ana Paula Arosio, logo adianta que ódio seria uma resposta muito óbvia. Esta questão me mobilizou durante a exibição. Tanto pelo drama vivido por Júlia como pela minha própria experiência de vida, tenho a impressão que o oposto do amor é a solidão, a dor e em muitas vezes a depressão!

Esse tom cinzento, sombrio e sofrido é o que caracteriza “Como Esquecer” — uma adaptação da história autobiográfica de Myriam Campello—  que poderia ser definido como o drama da perda. Júlia, uma professora universitária de literatura inglesa, se vê abandonada após longa relação com Antonia. Seu melhor amigo, o ator Hugo, interpretado por Murilo Rosa, tem o temperamento oposto — é otimista, alegre e amoroso—, mas também convive com a dor da perda recente de seu namorado. Para fechar o círculo, Lisa, papel de Natália Lage, separou-se do namorado. Como solução para a vida dos três, Hugo propõe que passem a dividir uma casa, num ambiente próximo à natureza. Depois de muito resistir, Júlia aceita o convite e eles se mudam para Mangaratiba, cidade litorânea e próxima do Rio.

Qual o oposto do amor?

O fio condutor do filme é dado pelo olhar e pela voz em off de Júlia. Os conflitos internos, a luta por refazer sua vida amorosa, o vazio com o fim do amor. Júlia em vários momentos funde sua realidade sofrida com os dramas da literatura, alvo de sua carreira universitária. As cenas em que ela aparece numa alusão ao mundo descrito e vivido por Virginia Woolf são encantadoras e tocantes!

No entanto, o roteiro, assinado por uma equipe de seis pessoas e que teve a versão final de José Carvalho, traz luz e brisa, para aliviar tanta dor! Hugo é o que incentiva a amiga e está aberto ao amor, pronto para voltar a ser feliz! Mas o que realmente mexe com a tristonha Júlia é Helena, prima de Lisa, artista plástica, que está de volta ao Brasil depois de uma temporada em Paris. Mesmo já tendo passado por dissabores, Helena provoca a professora, justamente por ser doce, alegre e de bem com a vida.

Em entrevista de lançamento do filme, a diretora confessa ter tido problemas de produção por tratar de temática LGBT: “Ainda há resistência em associar produtos e marcas a esse universo. Por outro lado, há muitas empresas e instituições que concedem benefícios aos casais homoafetivos e foi por meio delas que conseguimos realizar o filme, que não é panfletário e não há nenhum conflito relacionado à sexualidade dos personagens. Mas confesso que trazer para o trato comum a imagem de duas mulheres andando de mãos dadas ou dois homens se beijando me agrada muito. Espero contribuir de alguma forma para o fim da homofobia”.

Para finalizar com uma resposta mais definitiva para o oposto do amor, diria que é o medo de amar. E o antídoto desse sentimento é exatamente o proposto pelos personagens Hugo e Helena: estar aberto e receptivo ao amor!

Teaser do filme “Como Esquecer

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Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.