Continuando um curioso passeio pelo grotesco

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Elenco do 2º Festival do Teatro Grotesco

Dentro do objetivo de sondar o grotesco em suas diferentes formas de manifestação, dependendo do olhar de cada dramaturgo sobre o tema, Antonio Rocco acertou na escolha dos autores (todos da cena paulistana),  no diretor que o acompanha, no elenco de muito bom nível , que se desdobra camaleonicamente  a cada noite e  também na equipe de apoio técnico-artístico. Despertando, pois,  em todos que estão  freqüentando  esse  Festival do Grotesco, no N.Ex.T.,  a vontade que  ele prossiga,  ampliando-se  ainda mais, a cada ano.

Comentados, anteriormente, os textos de Otávio Frias Filho (A Emancipação da Mulher…) e de Chico de Assis (O Ovo e a Galinha), vamos às seguintes, na ordem que as vimos, Boi da Cara Preta, de Sérgio Roveri, e Atirei no Dramaturgo, de Mário Viana.

TAMBÉM TEMOS ESTRANHOS BEBÊS

Perfeitamente sintonizado com os princípios característicos do que seja grotesco segundo o Dicionário Aurélio (ridículo, que se presta ao escárnio; individuo grotesco, moda grotesca), o autor de Boi da Cara Preta, o premiado Sérgio Roveri capitaneia esse singular festival idealizado por Antonio Rocco em seu descolado espaço cênico-recreativo (teatro e bar).

Flagrando um momento de aconchego familiar de um jovem casal , em torno do carrinho (colocado de perfil) do filhinho querido, Nenezinho,motivo de alegria para os pais “corujas”, eis que sinais de fome e ansiedade  se sucedem, amedrontadoramente, vindos do bebê , criando discordâncias nos pais, cada qual com sua visão de apaziguá-lo. A situação está se tornando insuportável. A avó da criança chega para por mais lenha na fogueira!

Marco Loureiro conduz com bem dosado humor negro essa pequena (35 rápidos minutos) obra-prima do  horror causado pelo grotesco inserido no cotidiano familiar. O autor caminha na contra-corrente dos seus parceiros deste Festival, mais voltados à crítica dos costumes  e ao absurdo que brota avassalador, das pessoas e das situações aparentemente mais corriqueiras.

Sérgio Roveri mantém com maestria o suspense do inusitado do momento cênico, no que é bem acompanhado pelo elenco (Jacqueline Obrigon, Luciana Caruso e Marcos Gomes) e até pelos efeitos sonoros.

Roman Polanski já não é o único: também temos um bebê maroto!

"Atirei no Dramaturgo", de Mário Viana

CRIATURAS GROTESCAS ATACAM NA MADRUGADA

O prolífero comediógrafo Mário Viana, sempre em cartaz na cena paulistana, incursiona pelo submundo da cidade grande, onde a droga, aliada à ignorância, à miséria moral e uma violência latente , cria o temor generalizado ao adolescente-pária das ruas.

Inspirado no episódio sangrento que envolveu nosso mais inquieto  autor da Praça Roosevelt, Mário Bortoloto, numa madrugada na própria praça, Mário Viana  capta o processo alucinatório que  acomete os  dois meliantes juvenis, num retrato cru, ridículo mesmo, pelo instantâneo  surreal  da procura da solução entre ambos para burlar a polícia, que todos sabem demora, mas chega!

Celso Melez e Mário Mathias  dominam o palco em crispantes  atuações, sacramentadas pelo pragmatismo da 3ª. personagem ( Fania  Espinosa). A direção de Marco Loureiro consegue manter a urgência da ação em todos os 35 minutos da narrativa.

A realidade colocou um final feliz nessa semi-ficção: Mário Bortoloto, tão querido (quando não temido pela língua afiada)  por todos nós está  por aí (leia-se pelos palcos), bem vivo e bem atento !

ET:  proximamente, as 2 últimas peças do Festival: “A Feia, a Bonitinha e a Inteligente” e “Telefone Público”, da dupla  Alexandre Machado  Fernanda Young  e  Antonio Rocco, respectivamente.

O CRÍTICO AFONSO GENTIL INVERTEU SEUS ARTIGOS AO ENVIAR AO SITE E O ÚLTIMO SAIU ANTES QUE ESTE, O SEGUNDO DA SÉRIE.

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Terminando o passeio pelo grotesco do N.Ex.T

Um curioso passeio pelo grotesco no Teatro N.Ex.T.

SERVIÇO: Teatro N.Ex.T. / Rua Rego Freita s, 454, Metrô República / fone 3259-9636 – 5as, 6as. e sábados, 21h30, 2 peças por noite, 70 minutos sem intervalo/Ingressos R$ 30,00 /Censura 18 anos /Estacionamento convencionado / Acesso Universal

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.