Córtex: só duas semanas para assistir a um destaque do ano nos palcos


Maurício Mellone, para o Favo do Mellone – parceiro do Aplauso Brasil  (mellone@aplausobrasil.com)

Monólogo é espetáculo marcante

Com texto de Franz Keppler e direção de Nelson Baskerville, Otávio Martins dá vida a uma grande história de amor, em que um cônjuge se desespera com o sumiço do outro. Até o dia 9 no Teatro Eva Herz

SÃO PAULO – Há muito um espetáculo teatral não me emociona tanto. Córtex, de Franz Keppler, dirigido por Nelson Baskerville e em final de temporada no Teatro Eva Herz, fisga o espectador desde o início. O personagem — vivido com vigor e emoção por Otávio Martins — começa a peça com a informação dura e impactante: diz que sua mulher desapareceu e de maneira misteriosa, já que não tem explicação alguma para tal sumiço. A plateia é envolvida de imediato neste clima de dúvida e incertezas: quem é aquele homem que se mostra ao mesmo tempo calmo e desesperado? O que realmente aconteceu com aquele personagem? Qual a versão mais próxima da verdade?

No centro do palco, aquele homem começa, numa profusão de ideias, relatar situações desconexas e sem sequência temporal, como se o espectador pudesse estar dentro de seu cérebro. Aqui vale um parêntese para relembrar a definição de córtex: camada periférica do cérebro, sede das funções nervosas elaboradas e das representações simbólicas; desempenha funções complexas como memória, atenção, consciência, percepção, pensamento e linguagem.
Desta forma, o personagem conta sobre o desaparecimento da mulher para a autoridade policial (até como uma forma de defesa já que passa a ser o principal suspeito pelo desaparecimento) ao mesmo tempo em que relata com carinho sua relação amorosa, os tempos de convivência diária com a mulher e a dedicação e cumplicidade que um tinha para com o outro.

“Procurei fazer uma narrativa que invade o cérebro do personagem. É como se estivéssemos lá dentro, vendo suas memórias, suas imagens, muitas vezes oníricas e fantásticas, além de suas percepções do mundo e da vida. Isso tudo é ressaltado pela direção do Nelson e pelas projeções em vídeo que, na realidade, são projeções da mente desse personagem, com imagens extremamente fantasiosas”, explica Franz Keppler.

“Córtex” encerra temporada dia 09 de dezembro

As contradições do relato assim como os momentos íntimos do casal vêm à tona e a plateia passa a ser cúmplice daquele homem. Houve ou não um pacto entre os cônjuges? Quem realmente desapareceu, a mulher ou foi ele? Qual a verdadeira circunstância vivida por aquele casal?

As diversas vozes e versões do fato são o que mais cativa no texto de Keppler. No entanto, o maior destaque de Córtex é a perfeita sintonia entre texto, direção e interpretação para o pleno resultado cênico. O enredo articulado é muito bem desenvolvido graças às soluções da direção, que com a ajuda do cenário e a projeção do vídeo contribuem para a compreensão da história, que é contada com maestria pelo ator.

Numa proposta cênica contundente como esta, o final só poderia ser mesmo surpreendente: o espectador não sai com uma resposta ou uma definição sobre o espetáculo. Precisa articular as versões e tirar a própria conclusão.

Difícil destacar algum elemento: além dos já citados (autor, diretor que responde pelo cenário e o ator), o figurino de Marichilene Artisevskis, a luz de Wagner Freire e a trilha de Ricardo Severo funcionam como elementos constituintes da trama central. Sem dúvida, um dos grandes espetáculos do ano!

Roteiro:

Córtex. Texto: Franz Keppler. Direção e cenografia: Nelson Baskerville. Elenco: Otávio Martins. Elenco dos vídeos: Nathalia Rodrigues, Caroline Carrero, Elizabete Kobayashi e Roberto Ikeda. Assistente de direção: Carolina Bastos. Trilha sonora original: Ricardo Severo. Figurino: Marichilene Artisevskis. Desenho de luz: Wagner Freire. Fotos: Otavio Dias. Produção executiva: Gabriel de Souza. Realização: Baobá Produções Artísticas.

Serviço:

Teatro Eva Herz (168 lugares), Av. Paulista, 2073, Livraria Cultura/Conj. Nacional. Informações: 11 3170-4059, www.teatroevaherz.com.br. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: sexta e domingo R$ 40e sábado, R$ 50. Bilheteria: terça a sábado das 14h às 21h e domingo das 12h às 19h. Aceitam-se cartões, cheques não. Vendas: tel. 4003-2330 ewww.ingresso.com.  Duração: 75min. Classificação: 14anos. Temporada: até 09 de dezembro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.