CRÍTICA: A BELEZA NOS ESCOMBROS DE “UM BONDE CHAMADO DESEJO”

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

UM BONDE CHAMADO DESEJO
UM BONDE CHAMADO DESEJO

SÃO PAULO – A premiada reimaginação de Rafael Gomes para a obra de Tennessee Williams encontra beleza na destruição e é feliz ao mostrar novas possibilidades de leitura do texto clássico. A temporada segue até 26 de junho, no Tucarena.

Montar um texto clássico é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, montar algo de Shakespeare ou, nesse caso, de Tennessee Williams, é garantia de poder trabalhar com um texto poderoso, além de ser um bom atrativo para o público, por outro lado a equipe criativa deve trabalhar para fugir da sombra gigantesca do autor. Existe a pressão de fazer jus à obra – por mais subjetivo que isso seja – e existem as inúmeras comparações.

É praticamente impossível que alguém vá assistir à versão de Rafael Gomes de Um Bonde Chamado Desejo sem qualquer conhecimento prévio da obra. É provável que o espectador já tenha assistido a Uma Rua Chamada Pecado, versão cinematográfica da peça, ou que tenha assistido a alguma montagem nacional, seja profissional, amadora ou estudantil. É possível também que o espectador tenha simplesmente lido o texto original, e construído sua própria versão. Ou que ele tenha topado com alguma adaptação da obra, como a Blue Jasmine de Woody Allen. Ou, simplesmente, que o espectador tenha ouvido falar por cima deste texto mundialmente conhecido.

De todo modo, o ponto é que é impossível entrar na sala de espetáculos sem ir acompanhado de uma extensa bagagem, de diversas referências, e de uma grande expectativa devido a todos os prêmios que a montagem em questão tem colecionado. É impossível entrar na área cênica sem se perguntar se a versão de Gomes fará ou não jus a uma dos maiores textos de Tennessee Williams.

Naturalmente, a resposta a esta questão é subjetiva, e não cabe a esta crítica tentar responde-la. O que cabe apontar é que Gomes dirige seu espetáculo sem se intimidar pelo calibre da obra original, e sem abrir concessões para ganhar a plateia. O que ocorre é justamente o inverso: o diretor se apropria da obra de tal modo que não tem medo de subverter personagens (especialmente no caso do Mitch de Donizeti Mazonas), nem hesita ao conferir à encenação um caráter contemporâneo e carregado de ressignificações de objetos e espaços, flertando inclusive com o meta-teatro.  Gomes também é corajoso ao lançar mão de uma trilha sonora nada óbvia, que vai do jazz ao tecno, passando pela banda indie Beirut. Percebe-se, então, que o diretor sente-se tão livre ao trabalhar com o material original, que ele pode ser considerado desrespeitoso com o dramaturgo. E essa é a melhor coisa que acontece ao espetáculo.

A força desta montagem surge do olhar fresco e imaginativo não só de Gomes, mas de toda a equipe criativa (destaque para o brilhante cenário de André Cortez que, de tão claustrofóbico estabelece um ponto de tensão imediato com o elenco; para a simplicidade do figurino de Fause Haten e para a elegante luz de Wagner Antonio), sobre o texto base. É inspirador ver como eles fogem do convencional e investem na teatralidade para garantir a potência do espetáculo – que ora se baseia no realismo, ora corre pelo surrealismo, ora brinca com alguns clichês do teatro contemporâneo e até apresenta um surpreendentemente bem-vindo teatro físico, calcado na Blanche DuBois da soberba Maria Luisa Mendonça.

© Joao Caldas Fº
© Joao Caldas Fº

É fundamental citar o trabalho de Mendonça no espetáculo, uma vez que sem uma Blanche crível e cativante todo o resto esfarelaria. A atriz apresenta uma entrega notável, lançando-se sem ressalvas no jogo. Consegue, assim, apresentar uma personagem cheia de contradições, a um só tempo frágil e perigosa, inocente e maliciosa, potente e decadente – ou, principalmente, potente por causa da decadência.

É de um imenso prazer sádico ver a rota de colisão traçada pela atriz, que embora opte por começar o espetáculo com uma Blanche já fora do eixo, ainda consegue surpreender pela profundidade de sua leitura. Os escombros que sobram dela ao final da ação poderiam beirar o caricatural, se a atriz e o diretor não soubessem encontrar beleza, humor e leveza em sua trajetória de desmoronamento.

No outro oposto encontra-se o Stanley de Juliano Cazarré, que transborda sexualidade, imbecilidade e violência. O ator preenche o espaço com a virilidade e agressividade que se esperam do personagem, e faz um contraste interessante ao trabalho de Mendonça, ao mesmo tempo em que consegue encontrar poesia à sua própria maneira.

Talvez poesia seja uma boa palavra – embora não a única – para se atrelar à experiência de assistir a esta montagem. Há uma poesia que surge do contraste gritante entre Blanche e Stanley, que surge das variações de forças entre os dois, da fragilidade, da sexualidade, da desilusão e da violência. O que sobra é uma beleza triste, desoladora. Mas inegavelmente bela.

Ao fim, a leitura proposta por Rafael Gomes e seus colaboradores não é, necessariamente, aquela que se esperaria de uma versão tradicional de Um Bonde Chamado Desejo. E isso é fenomenal.

 

Um Bonde Chamado Desejo

Texto: Tennessee Williams

Tradução e Direção: Rafael Gomes

Elenco: Maria Luisa Mendonça, Juliano Cazarré, Virgínia Buckowski, Donizeti Mazonas, Fabrício Licursi, Fernanda Castello Branco e Matheus Martins

Cenário: André Cortez

Figurino: Fause Haten

Iluminação: Wagner Antonio

 

Serviço
Até 26 de junho. Sextas às 21h30, sábados às 21h e domingos às 18h.
Ingressos: Sextas, R$ 50,00 e sábados e domingos, R$ 70,00

Tucarena. Rua Monte Alegre, 1024. Entrada pela rua Bartira. Perdizes.