Crítica: A inveja retratada com exuberante elegância em Um Réquiem Para Antonio

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

"Um Réquiem Para Antonio"
“Um Réquiem Para Antonio”

SÃO PAULO – A lendária rivalidade entre Salieri e Mozart, dois compositores que, apesar de contemporâneos, tem traços estilísticos completamente distintos, é somente o mote utilizado pelo jornalista e dramaturgo Dib Carneiro Neto em Um Réquiem Para Antonio, sob direção de Gabriel Villela – cartaz de sexta a domingo do Tucarena –, para tratar, com exuberante elegância, um dos sete pecados capitais: a inveja.

Numa espécie de “quase-morte”, termo utilizado pelos budistas que, em síntese, serve para indicar o período em que o moribundo, embora vivo, esteja num plano onírico, entre vivo e morto, Antonio Salieri (Elias Andreato) recebe o invejado compositor Wolfgang Amadeus Mozart (Claudio Fontana), morto 34 anos antes,  em seus derradeiros sopros de vida e, no picadeiro (literalmente) deste sonho-pesadelo, ambos passam a limpo situações vividas e, sobretudo, imaginadas dos anos em que conviveram na corte austríaca.

Dib Carneiro Neto faz magnífica manobra dramatúrgica ao colocar seu texto nessa espécie de limbo de Salieri, onde realidade e ficção se confundem, resultando numa perfeita metáfora com a lenda criada, que se confunde com dados reais, sobre a suposta rivalidade de Salieri e Mozart, E é aí que o espetáculo alcança o status de universal, colocando o sentimento corrosivo da inveja em evidência, sobreposto ao indivíduo que a sente. Podemos, então, pensar, quando assistimos ao espetáculo, que o compositor que pensava ter mais merecimento em ser “escolhido por Deus para ser um gênio “ seja equivalente à  inveja que sente um artista, que não é famoso entre a massa, de um contemporâneo seu que, segundo sua própria opinião, seja menos merecedor do estrelato que alcançou.

Essa enriquecedora opção em não se atar aos rigores biográficos que engessariam a criatividade, é evidenciada pela sofisticada encenação de Gabriel Villela que escolheu uma arena, em que está armado um magnífico picadeiro, assinado pelo cenógrafo Márcio Vinícius , e utilizar como suporte as máscaras do bufão (Salieri) e do palhaço (Mozart), cuja tradição popular dialoga com o universo erudito, marcado ainda mais pelas opções musicais que trazem de composições de Salieri e Mozart à música popular contemporânea como Puro Teatro (La Lupe)e Passarim (Tom Jobim).

O gancho das músicas, executas ao vivo pelo excelente pianista Fernando Esteves e cantadas pelas deslumbrantes vozes de Mariana Elizabetsky e Nábia Villela, servem para falar do estupendo trabalho do ator Elias Andreato, intérprete de Salieri, com apaixonada e meticulosa criação de um “vilão”, já que invejoso e capaz de escabrosas vilanias contra Mozart, seu invejado, adorável e cheio  de traços imaturos como quando prefere ouvir I Dreamed a Dream, do musical Les Miserábles, a ouvir as exuberantes sonatas, sinfonias, árias de óperas, criadas por Mozart. Andreato tem desempenho magnífico dosando humor ácido, patético às vezes, e domínio vocal absoluto, conseguido por incansável trabalho com a italiana Francesca Della Mônica, antropóloga da voz.

UM RÉQUIEM PARA ANTONIO
UM RÉQUIEM PARA ANTONIO

No papel de Mozart, o ator Cládio Fontana desfila todas as suas capacidades em usar seus instrumentos artísticos – voz, corpo etc. –, manipulando um boneco com virtuosística habilidade e faz uma minimalista composição de personagem que deve ser seguida como exemplo pelos atores novatos.

Numa ficha técnica que inclui nomes como Wagner Freire, Miguel Briamonte, José Rosa,  Bababaya etc. a expectativa é imensa e acaba por ser superada, encantando a quem assiste Um Réquiem Para Antonio.

 

Ficha técnica:

Texto: Dib Carneiro Neto.

Direção: Gabriel Villela.

Elenco: Elias Andreato, Claudio Fontana, Nábia Vilela e Mariana Elizabetsky.

Figurino: Gabriel Villela e José Rosa.

Cenário: Márcio Vinícius.

Adereços: Shicó do Mamulengo.

Iluminação: Wagner Freire.

Preparação vocal: Babaya.

Espacialização vocal e antropologia da voz: Francesca Della Mônica.

Direção musical e arranjos: Miguel Briamonte.

Pianista: Fernando Esteves.

Assistência de direção: Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo.

Produção executiva: Clíssia Morais e Francisco Marques.

Direção de produção: Claudio Fontana.

 

Serviço:

Um Requiém Para Antonio. Tragicomédia. Com Elias Andreato e Claudio Fontana. Direção:  Gabriel Villela. Duração 70min. Teatro Tucarena. Sex e Sáb 22h, Dom 19h. R$ 40 (sex), R$ 50 (sáb e dom). Classificação 14 anos.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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