CRÍTICA: A NOSTALGIA DOCE DE “ESTÚPIDO CUPIDO”

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

ESTÚPIDO CUPIDO
ESTÚPIDO CUPIDO

SÃO PAULO – FRANÇOISE FORTON LIDERA ELENCO DE ONZE ATORES QUE CANTAM SUCESSOS DOS 60 E 70. A PEÇA ESTÁ EM CARTAZ NO TEATRO GAZETA, ATÉ 20 DE MARÇO.

A fórmula é simples – pôde ser vista em A Sessão da Tarde ou Você Não Soube Me Amar, da Cia de Teatro Rock, ou em Mamma Mia!, sucesso da Broadway – e aplicada há algum tempo no palco, com maior ou menor êxito: um fiapo de história serve de pretexto para a execução das músicas de determinada época, gênero ou grupo. Assim, personagens são batizados com o nome de canções apenas para garantir que elas sejam cantadas em algum momento da peça, e situações são armadas com o único intuito de apresentar alguma canção, pouco importando o quanto ela acrescenta à trama (no caso de Estúpido Cupido, “Banho de Lua” aparece mais para cumprir tabela do que para levar a história adiante).

Ainda assim, apesar da estrutura fácil (ou justamente por causa dela), o truque geralmente funciona, especialmente se você procura um espetáculo descompromissado para encerrar o dia. Se você for com essa expectativa assistir a Estúpido Cupido, com texto de Flávio Marinho e direção de Gilberto Gawronski, as chances de se divertir são bem altas.

Gawronski é hábil ao lidar com as limitações que têm em mãos. O elenco é pequeno, o cenário é simples, a iluminação é básica. De tudo isso, o diretor tira seu melhor, dando ao espetáculo um curioso ar camp , quase brega, que funciona muito bem.  O elenco é dividido de forma direta (os atores jovens interpretam os personagens no passado, enquanto o elenco maduro interpreta suas versões nos dias atuais), mas é refrescante ver o jogo que surge disso. No palco a maior parte do tempo, os atores têm muita oportunidade de interagir com sua contraparte do futuro/passado, e isso ajuda muito na composição dos personagens. Volta e meia é possível ver um personagem jovem assistindo e reagindo à interação de dois personagens adultos, como se visse seu próprio futuro, ou vemos um personagem adulto relembrando seu passado ao olhar para os jovens. Isso preenche um palco que de outra maneira estaria vazio, e diz mais sobre as relações e visões dos personagens do que as músicas, além de ser um jeito elegante de não depender só do texto falado.

 O problema é quando Estúpido Cupido, que funciona bem em seu pequeno porte, mira nas superproduções e acaba não conseguindo o que planejava. Sem coro e corpo de baile grandes o bastante para impactar, cenas que tentam ser grandiloquentes, como “Erva Venenosa” ficam frouxas, pois parece que a produção esqueceu o tamanho que tem, e o que lhe cabe bem.

O cenário preciso de Clívia Cohen é muito mais pontual nesse sentido: composto de praticáveis móveis feitos de box truss, não só estabelece bem a atmosfera da festa onde se passa a peça, como é modular o bastante para criar, em segundos, um cinema, um palco de desfile e outros lugares marcantes do passado dos personagens. Útil, imaginativo, e coerente com a dramaturgia, como todo cenário deveria ser.

 A alma do espetáculo, o elenco, também tem seus destaques. Françoise Forton está confortável como líder do musical, e embora sua voz não seja deslumbrante, também não desafina nas canções. No mesmo caminho está Sheila Matos, a arquirrival da protagonista. Com ótima presença de palco e habilidade em injetar malícia nos gestos, falas e olhar, é uma das que mais chama a atenção dos espectadores – o mesmo vale para sua contraparte jovem, que tem pouco tempo de cena, mas aproveita bem seu espaço.  Clarisse Derzié Luz também se sai bem como um dos alívios cômicos do espetáculo. Contudo, o destaque maior vai para Carla Diaz.

Com um timing impecável, e entendendo perfeitamente a caricatura que é seu personagem, Diaz faz piada de si mesma, da peça, dos atores e da lacuna que separa a sua geração da de Forton. Ela é, sem sombra de dúvida, a melhor coisa do elenco, e está interessante onde quer que esteja: seja misturada ao coro, seja no canto do palco ou dando suas falas hilárias (muito mais por mérito da atriz do que da dramaturgia).

ESTÚPIDO CUPIDO
ESTÚPIDO CUPIDO

No extremo oposto está Luciano Szafir, que tenta convencer como ator, cantor e galã e só consegue mesmo este último – e não tanto quanto deveria. No meio do caminho entre abraçar a caricatura, como Diaz faz, e de levar seu personagem (e a si mesmo) a sério, Szafir não faz nem uma coisa, nem outra, e entrega uma atuação unidimensional e sem carisma. As cenas em que ele é assediado pelas mulheres do elenco soam forçadas e não naturais, o que enfraquece o espetáculo em seu último ato.

Ainda assim, apesar da ausência de um galã legitimo – e com um elenco masculino eclipsado pelas boas atrizes que botam o musical em movimento –,  Estúpido Cupido ainda consegue ser o que se propõe: um espetáculo leve e ingênuo, interessado em dialogar com a nostalgia da plateia.

ESTÚPIDO CUPIDO
Texto: Flávio Marinho

Direção: Gilberto Gawronski

Elenco: Françoise Forton, Luciano Szafir, Clarisse Derzié Luz, Renato Rabelo, Sheila Matos, Carla Diaz, Luísa Viotti, Julia Guerra, Ryene Chermont, Ricardo Knupp e Mateus Penna Firme

 

SERVIÇO
Até 20 de março. Sextas e sábados às 21h, domingos às 18h
Teatro Gazeta. Avenida Paulista, 900.
Ingressos: R$ 100,00