CRÍTICA: A PERCEPÇÃO DA VIOLÊNCIA EM “INSTRUCCIONES PARA ABRAZAR EL AIRE”

Fernando Pivotto, para o Aplauso Brasil (fernando@aplausobrasil.com)

INSTRUCIONES PARA ABRAZAR EL AIRE
INSTRUCIONES PARA ABRAZAR EL AIRE

SÃO PAULO – Espetáculo do grupo colombiano Teatro Malayerba que integra a Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo bebe de Beckett e Arrabal para recontar uma história real, e segue temporada até amanhã pelos CEUs de São Paulo.

A partir de um fato verídico, o assassinato de ativistas políticos argentinos e o sequestro de seus filhos, o espetáculo Instrucciones Para Abrazar El Aire, integrante da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo traça uma reflexão sobre a violência e seus ecos ao longo do tempo.

Gravitando em torno da violência encontram-se os três arcos dramáticos da montagem: um casal de cozinheiros especialistas em coelho ao escabeche, que podem ou não ter interesses revolucionários; o casal de vizinhos que desconfia das atividades dos cozinheiros da casa ao lado; e, por fim, um casal de idosos que chora o desaparecimento de sua neta pequena, há décadas.

Alternando do humor absurdo e agressivo (que remete muito a Fando e Lis, de Arrabal) que dá o tom das cenas dos cozinheiros ao lirismo sensível dos velhinhos que abraçam o ar pois não podem abraçar sua neta, o texto de Arístides Vargas cria um mosaico de diferentes percepções de violência.

Os cozinheiros, por mais ingênuos, são violentos ao matar os coelhos. Na visão de sua vizinha, também são violentos por mancharem a terra com o sangue do abate, desarmonizando o feng-shui da vizinhança. Ao mesmo tempo, ela e seu marido são violentos em sua pequenez, por repudiar os moradores da casa ao lado e falar deles por suas costas.

Há, ainda, a violência nas relações interpessoais imediatas: o cozinheiro é violento ao chamar sua ajudante de ignorante, a esposa é violenta ao silenciar o marido sempre que ele discorda dela, e os dois submissos são violentos quando subvertem a dinâmica de poder de seus pares.

Trata-se portanto de violências cotidianas, convencionais, que ficam no campo das farpas, dos olhares enviesados e da voz com veneno.

Existe, porém, o campo de violência que habita a família desfeita. A neta abduzida e os avós que mantém a sua recordação são vítimas de um outro tipo de violência, aquela que é definitiva, inexorável, aquela que não nos deixa nenhuma alternativa a não ser conviver com a dor da perda, que cobre nossos olhos e nos faz ver o mundo através de seu filtro.

O mundo é um lugar violento, e as relações humanas seguem este caminho. A violência é moeda de troca e só há uma coisa a ser feita: resistir, suportar a dor sem cair e nem esquecer, a fim de que o horror não se repita. É isso que fazem as mães e avós da Praça de Maio, que ainda lutam pelos seus familiares desaparecidos no período da ditadura argentina – e para quem este espetáculo foi dedicado em sua estreia na Mostra. É isto que faz também este espetáculo, que luta para que a violência não seja subestimada.

INSTRUCCIONES PARA ABRAZAR EL AIRE

Dia 05 no CEU Azul da Cor do Mar, às 20h. Grátis.
Dia 06 no CEU Perus, 19h30. Grátis.

Ficha Técnica
Texto: Arístides Vargas
Direção: Arístides Vargas, Maria Del Rosário Francés e Gerson Guerra
Iluminação: Gerson Guerra
Elenco: Arístides Vargas e Maria del Rosário Francés